QUANDO FALA O CORAÇÃO (Crítica)

QUANDO FALA O CORACAO

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Spellbound
Ano do lançamento: 1945
Produção: EUA
Gênero: Suspense, Policial
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Angus MacPhail, George Barnes, Hilary St. George Sanders e Ben Hecht
Classificação etária: 14 Anos

Sinopse: A dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman) trabalha como psicóloga em uma clínica para doentes mentais. O local está prestes a mudar de direção, com a substituição do dr. Alexander Brulov (Michael Chekhov) pelo dr. Edward (Gregory Peck). Ao chegar o dr. Edwards surpreende os médicos locais pela sua jovialidade e também por seu estranho comportamento. Logo Constance descobre que ele é na verdade um impostor, que perdeu a memória e não sabe quem é nem o que aconteceu com o verdadeiro dr. Edwards.

Por Pedro Vieira

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No começo do século XX, Sigmund Freud publicou os estudos que viriam fundamentar as teorias da chamada psicanálise. Com a popularidade desse meio de pesquisa da mente, que tinha como base seus estudos sobre os sonhos, o mundo da arte acabou sendo influenciado – em especial a corrente artística conhecida como Surrealismo. De olho tanto na psicanálise quanto no surrealismo, Hitchcock dirigiu “Quando Fala o Coração” (Spellbound), sem deixar que o filme perdesse a cara de produção hollywoodiana clássica.

Criando uma trama de mistério onde as pistas são os sonhos, o roteiro segue a psicanalista Costance Petersen (Ingrid Bergman), que tenta desvendar a morte do chefe do hospital no qual trabalha investigando a mente de um homem (Gregory Peck), única testemunha do acontecimento e que sofre de amnésia.

Se as emoções tem forte influência sobre o psicológico, então a personagem Constance é o maior exemplo disso. A partir do momento que se apaixona pelo desconhecido interpretado por Peck, ela fica obcecada em provar que ele não é culpado do crime a qual todos o condenam (o título brasileiro, de certo modo, serve como uma metáfora para esse modo de agir da personagem). Embora sejam compreensíveis suas ações, inclusive pela temática tratada, é estranho pensar como uma médica tão respeitada como ela se deixa levar por emoções que ela sabe que deve controlar. Há algo de demasiadamente romântico no modo como a personagem é conduzida, embora Ingrid Bergman a interprete com grande vigor, tentando em todos os instantes transformá-la em uma mulher de caráter forte e com preocupações estritamente profissionais – mas é difícil escapar de algumas sequências amorosas sem fazer com que Constance pareça estar ali apenas pela sua paixão pelo personagem masculino.

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Como o inconsciente e o subjetivo são muito importantes no filme, o diretor utiliza de estratégias fílmicas que evidenciam o poder da câmera em mimetizar o psicológico. Em vários momentos há, por exemplo, o uso da câmera subjetiva, que exaltam o nível de tensão do longa e tiram o espectador do papel de voyeur, recorrente nos filmes de Hitchcock, para inseri-lo na pele dos personagens – como se o espectador fosse seu cúmplice. Destaque especial para a climática cena do final, que em determinado ponto é narrada de modo subjetivo. Há também a bela sequência do sonho do personagem de Peck, onde a direção de arte utiliza de referências visuais vindas diretamente das obras de Salvador Dalí.

O uso do forte contraste evidencia que este é um filme noir, assim como grande parte das produções da época. Alguns podem pensar que isso torna esta obra apenas mais um filme comercial de Hollywood, mas a verdade é que esta escolha estética serve para auxiliar o filme, aumenta o clima de mistério no psicológico do espectador a partir da concepção visual – algo que não poderia ser descartado justamente em um filme que busca desvendar os mistérios da psique.

Se Hitchcock se propõe a mostrar como a complexidade do inconsciente humano pode revelar diversos segredos escondidos, utilizando as teorias de Freud ele consegue e o faz muito bem. “Quando Fala o Coração” se torna um thriller psicológico poderoso e envolvente, capaz de dialogar tanto com a ciência quanto com a arte.

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PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Canção

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante – Michael Chekhov, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Visuais.

TRAILER

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