RAÇA (Crítica)

Juca Claudino

Não podemos esquecer Jesse Owens.

Os Estados Unidos tem na sua constituição uma marca muito forte: influenciada por pensadores como John Locke, a defesa dos preceitos do Liberalismo. Clama-se a terra da Liberdade e da Democracia! Posteriormente, sob discursos que alavancavam os mesmos ideais, clamaram-se a polícia do mundo – falo principalmente do período da Guerra Fria, quando promoveu ditaduras e guerras por diversos países para, segundo o discurso dos EUA, defender a mesma liberdade e democracia. A liberdade como símbolo estadunidense já foi por diversas vezes satirizada, e se pensarmos nas políticas de segregação racial que lá prevaleceram durante anos, ou nas ações de cunho imperialista que promoveram ao longo dos últimos 2 séculos, entenderemos as razões disso.

Nossa história se passa no ano de 1936, ano no qual a Berlim da Alemanha do 3o Reich recebeu os Jogos Olímpicos. E se citei as políticas de segregação racial nos EUA há pouco, o que falar das políticas de (repare no absurdo que é esse termo) higiene racial, dos discursos de superioridade ariana e dos discursos de ódio a negros, judeus, ciganos e a todas as pessoas que não pertencessem à raça ariana defendidos pelos nazistas (discursos esses os quais provocaram um extermínio de centenas de pessoas, em uma das maiores crises humanitárias da história da humanidade)?

“Raça”, filme de Stephen Hopkins, conta a história de Jesse Owens: um afro-americano, neto de pessoas escravizadas, pobre e morador da periferia de Ohio. Em meio à vigência de leis racistas nos Estados Unidos da década de 30 – leis essas que prevaleceram até um pouco mais da metade do século XX, segregando e marginalizando injusta e violentamente toda a comunidade negra do país -, Jesse é o primeiro de toda a sua família a frequentar uma universidade e lá foi descoberto como um atleta cujas habilidades têm magnitudes surreais. É convocado para as Olímpiadas de 36, as Olímpiadas da propaganda nazista. E aos olhos de um mundo no seu entreguerras, quando lideranças nazifascistas ganhavam fôlego político (e o trágico final disso tudo nós lembramos), Jesse Owens se torna o maior atleta do mundo.

Um filme biográfico sobre Jesse Owens indiscutivelmente teria um potencial fortíssimo em debater a intolerância racial. Nos Estados Unidos, ano passado, episódios racistas envolvendo as forças policiais estadunidenses geraram uma tensão muito grande. O debate acerca da intolerância é imprescindível e urgente – uma vez que, infelizmente, ainda é algo muito recorrente e muito atual. Mas qual a forma que “Raça” enquadra a biografia de Jesse Owens e como o longa aborda suas questões sociais?

Bom, para responder tal pergunta é essencial que falemos de Stephen Hopkins. O diretor jamaicano começou sua carreira no final dos 80 e foi na TV que conseguiu boa parte dos melhores compositores de seu currículo: em 2005, venceu o Emmy de Direção em uma Minissérie ou Filme feito para Televisão com “A Vida e Morte de Peter Sellers”, uma dramédia biográfica sobre o lendário ator de “Dr. Strangelove”. Não é à toa, portanto, que no seu longa cinebiográfico sobre Jesse Owens tenha feito um drama “Sessão da Tarde”, com atmosfera otimista, linguagem e visual bem televisivos, e principalmente com a construção de Jesse como um herói romântico de forma bem cliché.

“Raça” faz sim uma denúncia ao racismo, todavia com pouca coragem e tímido ativismo. O principal foco do roteiro é construir um herói idealizado, que com sua persistência superou obstáculos e “chegou lá!” – e isso é mostrado de forma bem genérica. Logo, ao mesmo tempo em que o corredor é transformado em “herói americano”, aponta as feridas racistas da história estadunidense (mas o que fica mais forte no longa é de fato a reafirmação dos “ideais” e do nacionalismo estadunidense). De resto, como já deve ter percebido, o filme baseia-se em uma série de fórmulas folhetinescas e, no final das contas, garante uma certa empolgação. Sim, “Raça” garante uma certa empolgação! Mesmo que seu ritmo e desenvolvimento da narrativa às vezes pareça redundante e pedante, Stephen James (intérprete de Owens) e Jason Sudeikis (intérprete de Larry Snyder, treinador de Jesse Owens) fazem com que a relação entre seus personagens gere um sentimentalismo minimamente cativamente. Além do mais, falamos de um episódio histórico memorável: Jesse Owens, um atleta negro, não só torna-se herói nacional de um país cuja intolerância racial deixa heranças extremamente lamentáveis como também faz com que as teorias racistas do nazismo fossem desmentidas em meio ao maior ato propagandista do 3o Reich até então.

Em 2016, na Suécia, Tess Asplund (de ascendência afro-sueca) ao confrontar uma marcha neonazista fez não só um belo ato de coragem e luta contra o racismo como também um simbólico alerta de que partidos políticos da extrema direita vêm ganhando força na Europa (é o caso de países como Áustria, Hungria, Alemanha, França e Polônia, nos quais partidos ultranacionalistas, de tendências autoritárias e xenófobos mostram ter expectativas de voto cada vez maiores). Aliás, não só na Europa, mas casos assim se repetem no Estados Unidos, Peru e… no Brasil, sede dos Jogos Olímpicos de 2016. É evidente, por consequência, que uma cinebiografia de Jesse Owens e o que esta pode representar para a luta contra o racismo e contra políticas de segregação social ganham maior peso em tempos tão complexos como esse. Porém, o filme de Stephen Hopkins opta por se esquivar de fazer um longa ácido e impetuoso na sua denúncia social, e faz um drama superficial e pouco surpreendente sobre um herói estadunidense. Consegue sim garantir o cinema pipoca, mas não de forma a tentar ser marcante, de jeito ou de outro, na história do audiovisual. É timidamente engajado, mas é engajado. De qualquer forma, tudo aquilo que venha para lutar por menos ódio e mais amor é excepcionalmente bem-vindo!

RACA

SINOPSE

Cinebiografia de Jesse Owens (Stephan James), atleta negro americano que ganhou quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, superando corredores arianos em pleno regime nazista de Adolf Hitler.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Joe Shrapnel, Anna Waterhouse
Título Original: Race
Gênero: Drama, Biografia, Histórico
Duração: 1h 58min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Livre
Lançamento: 23 de junho (Brasil)

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