Razões Para Não Perder a Incrível Série “O Ministério do Tempo”

Andressa Gomes

Se você ainda não ouviu falar dessa obra singular, inovadora e inteligente, já está mais do que na hora. Trata-se de um dos maiores sucessos, de público e crítica, da televisão espanhola nos últimos anos, teve sua estreia em fevereiro de 2015, no momento está na sua terceira temporada, e é imperdível para quem curte ficção cientifica, séries históricas, suspense, drama político, humor ácido, e autodepreciativo (ou tudo isso junto).

Criada pelos irmãos Pablo e Javier Olivares, a série gira em torno de um grupo de agentes que trabalha para o Ministério do tempo, instituição governamental autônoma e secreta que foi criada durante o período em que a Rainha Isabel governava a Espanha. Somente reis, presidentes e um número restrito de pessoas sabe de sua existência. Seu principal objetivo é preservar a história da humanidade, tal como ela ocorreu, e impedir que intrusos do passado ou do presente façam uso da história para benefício próprio. Para isso, o Ministério conta com diversas patrulhas, informantes, e funcionários de diversas épocas que se comunicam entre si, e viajam pelo tempo sempre que é necessária sua intervenção.

Uma dessas equipes é composta por Amélia Folch (Aura Garrido), uma das primeiras mulheres a entrar em uma Universidade no final do século XIX, Alonso de Entrerríos (Nacho Fresneda), um soldado do século XVI, e Julián Martínez (Rodolfo Sancho), um enfermeiro do nosso tempo (essa configuração se altera ao longo das temporadas seguintes). Já nos primeiros minutos do primeiro episódio somos apresentados aos três, e eles são recrutados e apresentados uns aos outros, e recebem, junto conosco, uma introdução a respeito da Instituição, suas regras, mecanismos e funções.

Aqui não existe máquina do tempo, mas sim, portais monitorados (numerados e organizados pelo Ministério) que levam a diferentes datas e épocas, mas sempre, dentro do território espanhol (ou que já pertenceu a Espanha em determinado momento histórico). Essas portas possuem origem misteriosa, e estão localizadas em um subterrâneo na cidade de Madrid (sobre o qual foi construído o Ministério) e foram descobertas na idade média, por um rabino que acabou revelando esse segredo a nobreza (sem mais detalhes, para evitar spoilers).

Neste universo, o tempo é unidirecional, imutável, e aqueles que o guardam, tratam de forma quase sagrada. Esse senso de preservação já difere de grande parte das obras que tratam desse tema de viagem no tempo, à medida que a premissa destas, normalmente gira em torno de Multi-universos, possibilidades e paradoxos que mudanças em fatos passados podem proporcionar. Além disso, de acordo com a lógica temporal da trama, os acontecimentos passados de todas as épocas estão sendo vivenciados repetidamente e paralelamente a nossa época. Desse modo, usar várias vezes a mesma porta, leva sempre ao mesmo dia, ano, hora, e sucessão de acontecimentos encadeados. Julián, por exemplo, tira proveito disso para voltar várias vezes para alguns dias específicos, onde pode reencontrar e reviver momentos com sua esposa, falecida há pouco tempo (mais uma vez, sem mais detalhes aqui, para evitar spoilers).

Ao longo dos episódios, acompanhamos o trio protagonista em suas missões, enquanto percorrem a história da Espanha e seus grandes acontecimentos, como a Guerra Peninsular, a Armada Invencível, o bombardeio de Guernica, a Revolução Filipina, e a Guerra Hispano-Americana. Encontramos também grandes figuras históricas, não só nascidas na Espanha, mas também que em algum momento se relacionaram ou estiveram nela. Só para citar alguns exemplos, nossa patrulha chega a interagir com as rainhas Isabel I,e Isabel II, Lazarillo de Tormes, Pablo Picasso, Tomás de Torquemada, Lope de Veja, Adolf Hitler, Napoleão Bonaparte, Cristóvão Colombo, Alfred Hitchcock, Gustavo Adolfo Bécquer, Goya, Felipe III, Felipe V, Miguel de Cervantes, Godoy, Luis Buñuel, Simón Bolívar, Harry Houdini, Rainha Isabel de Aragão, Salvador Dalí, e Velasquez (também contratado do ministério).

Cada episódio tem cerca de 1 h de duração e é auto- conclusivo (ainda que em poucos casos já tenha acontecido de um mesmo arco se dividir em dois episódios). Trata-se de uma série procedimental, com episódios autoconclusivos e independentes, onde cada um, apresenta um conflito (no caso, uma missão) que é desenvolvido e resolvido até o final do episódio. Não é necessário ter conhecimento prévio parar aproveitar e entender o que se passa, no entanto, quase todos os personagens também possuem conflitos, mistérios, e arcos de temporada (as vezes mais de uma) que vão progredindo aos poucos, mas que normalmente tem menos destaque dentro dos episódios.

Na Espanha, “O Ministério do Tempo” vai ao ar pela emissora pública TVE. No final do ano passado, a Netflix adquiriu os direitos de emissão da obra nos 190 países em que está presente. No entanto, só deve disponibiliza-la após a transmissão da terceira temporada (no ar atualmente), encerrar sua exibição na Espanha. A série já é uma das mais premiadas da cena atual, e graças também à sua estratégia de narrativa transmidiática, conquistou uma forte base de fãs na internet. Além de histórias em quadrinhos, livros, disponibilização de roteiros e fichas de personagens, e vídeos exclusivos para o site, também existe um aplicativo (Ministério VR) para iPhone 6, Samsung Galaxy S7, Nexos 5 e modelos posteriores. Nele foi disponibilizado o episódio exclusivo ‘El tiempo en tus manos’, uma experiencia de realidade virtual, em 3D e 2D, pela qual a produção ganhou o prêmio Digital Awards 2016 na categoria desenvolvimento mais inovador.

Razões Para Não Perder a Incrível Série “O Ministério do Tempo”

Ainda não deu vontade de assistir? Ok…então confira abaixo mais detalhes do enredo, e fatores que fazem dessa série um produto tão aclamado e divergente do vem estando estado em voga no mainstream televisivo mundial:

1. Originalidade, Humor e Patriotismo

Esqueça o visual e os apetrechos futurísticos que normalmente estão presentes em organizações que aparecem nas obras de ficção científica. Assim como qualquer outro escritório ou repartição pública, O Ministério do Tempo aqui mostrado, com exceção da parte subterrânea que leva aos diferentes portais, possui o mesmo ambiente e clima de escritório, com hierarquias, com as mesmas burocracias e reclamações sobre ela, e o mesmo aspecto rotineiro. Nem os protagonistas, nem os coadjuvantes se colocam como heróis, mas sim, como cidadãos comuns, cumprindo as funções que lhe foram delegadas.

O humor ácido está presente quase a todo momento, principalmente para fazer críticas a corrupção, situação socioeconômica, e outros fatores do país, no melhor estilo “rir de si mesmo”. Uma das piadas, mas marcantes e recorrentes é de que o que parece mais surreal e inverossímil, não é a existência dos portais ou da organização mantida em segredo há tanto tempo, mas que um Ministério espanhol funcione bem. O roteiro nunca busca a piada óbvia ou fácil, nem se presta a utilizar recursos baixos como cenas de sexo e violência extremas e sem propósito.

Além desse aspecto crítico, existe também um tom patriótico, no louvor e resgate aos grandes momentos e heróis desta nação. É uma verdadeira aula de história camuflada de série de aventuras, bem executada, e que não soa nem um pouco didática ou explicativa demais. Ainda que seus roteiristas tenham capacidade para tal, pelo recurso sobrenatural de viagem no tempo, a série não tem intenção em criar tramas muito complexas, misteriosas e confusas, como Lost, por exemplo, mas sim, de homenagear, divertir, e explorar todas as possibilidades, encontros e conflitos de gerações (ou de séculos, em alguns casos) que sua premissa pode proporcionar.

2. Personagens

O foco se desloca para diferentes personagens ao longo dos episódios, incluindo os coadjuvantes também. A equipe principal não permanece a mesma durante todas as temporadas, mas os roteiristas conseguem introduzir, afastar e trocar personagens de forma orgânica e inteligente.

Amélia, vinda do século XIX, líder da equipe, é inteligente, determinada e independente, completamente a frente de seu tempo. Não é de se surpreende que desde o primeiro momento em que pisa no século XXI fica maravilhada com todos os avanços em termos de direitos da mulher e de tecnologia (e também horrorizada com outros aspectos relacionados a esses mesmos tópicos). Alonso, vindo do século XVI, é a personificação do cavaleiro medial, heroico, ético, leal e cristão. Julián, que vive na época atual, é o personagem através do qual somos apresentados a todo esse novo Universo nos primeiros episódios, gentil, tímido, e corajoso, no início, vive um momento de luto e descrença em sua vida. Obviamente, as diferentes personalidades convivendo juntas, aos poucos, formam fortes lações de amizade e vivem divertidas situações.

3. Suposto Plágio da NBC

Em setembro do ano passado, os criadores da série entraram com um processo contra a NBC, acusando a série Timeless de plágio. Cabe a cada um julgar e tirar suas próprias conclusões, mas as semelhanças e “coincidências” entre ambas, são várias, e inegáveis. Em maio deste ano, após meses de andamento do processo, sem grandes atualizações, foi anunciado que a empresa que produz a série, Onza Partners, chegou a um acordo financeiro com a NBC, e encerraram o processo, sem mais detalhes divulgados. A série é tão boa que até os gringos não resistiram a vontade de copiar.

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