RODA GIGANTE (Crítica)

Igor Pinheiro

Volta e meia, e principalmente nos últimos meses, tem sido fácil eu me deparar com a situação em que preciso tentar separar um artista como pessoa da sua obra e acabo por cair em uma crise de reflexões existenciais. Woody Allen é um representante forte desses meus momentos de dúvida. Ele faz histórias incríveis que conseguem dialogar diretamente com muitas pessoas, e isso é difícil, assim como continuar deixando de lado todas as histórias que envolvem a vida pessoal do diretor, roteirista, produtor e mil outras funções. Em “Roda Gigante”, Woody volta com força depois de filmes mais leves e com pouca atenção, distante da sua época de ouro, mas provando que ainda consegue tratar com uma intensidade única assuntos como ansiedade, relacionamento e a busca por um amor.

Ambientado nos anos 50, o filme é narrado pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), que nos conta a história de uma humilde família, formada por Humpty (Jim Belushi), supervisor de uma roda-gigante em um parque de diversões, a garçonete Ginny (Kate Winslet) e pequeno incendiário Richie (Jack Gore). Eles têm a pacata vida abalada com a chegada de Carolina (Juno Temple), filha de Humpty que não dá as caras há muito tempo, e do próprio salva-vidas narrador.

Com uma base bastante simples, a trama se desenvolve sem muitas surpresas ou reviravoltas inesperadas, mas nos prende principalmente pela forma como é contada. Aqui Woody brinca na direção de uma maneira que não me lembro de ter visto e, por favor, me corrijam se eu estiver errado. Principalmente na casa da família protagonista, a câmera passeia pelo cenário, indo de um personagem para o outro ou até mesmo se aprofundando em um único, com poucos ou nenhum corte, fugindo da câmera parada e cena rolando livremente que estamos acostumados a ver o diretor fazer. Nos envolvemos mais rapidamente na história e em cada cena.

Em um tom mais profundo, ainda é possível refletir sobre as escolhas da vida e em como estamos sempre em busca de um objetivo, desde algo para queimar ou um novo amor. Quando fracassamos, começamos de novo da maneira que é possível, nos levando a pensamentos sobre ciclos da vida, parecidos com os que temos no fim de “Vicky Cristina Barcelona”.

RODA GIGANTE (Crítica)

Ainda sobre a conturbada relação de Woody e as mulheres, fiquei com medo de, em certo momento, a história acabar caindo no clichê da “mulher louca”, principalmente diante de tudo o que é vivido pela personagem de Kate Winslet. Não sei se pelos rumos do roteiro ou pela própria atuação da atriz, essa ideia parece ser um pouco afastada. Kate, aliás, se entrega aqui em um de seus melhores papéis, digno de prêmios. A atriz toma conta das cenas e faz um trabalho incrível com as já citadas brincadeiras com a câmera, com destaque para dois momentos em que fala praticamente sozinha por minutos, nos deixando sem piscar com sua intensidade.

Com exceção da duvidosa escolha de Justin Timberlake para um dos papéis principais, que talvez perca pontos até mesmo por ser ofuscado pelos outros, o elenco dá seu show à parte. Jim Belushi é monstruoso e consegue irritar ao mesmo tempo que é extremamente carismático. Juno Temple consegue praticamente a mesma coisa como uma jovem cheia de sonhos e com uma experiência de vida incomum para a idade.

E tudo isso ainda é envolvido por um visual muito bem trabalhado. Direção de arte e figurino cheios de detalhes, que merecem até uma revisita ao filme, formam um ambiente verossímil e ao mesmo tempo com um toque surreal e fantasioso. A fotografia de Vittorio Storaro (também responsável por “Café Society”) é explicitamente participante, alternando entre calor e frio no meio de uma mesma cena ou plano e contando a história junto com tudo o que está presente em quadro, quase se tornando um novo personagem.

Escolhido como o filme de encerramento do Festival do Rio de 2017, onde teve sua segunda exibição mundial, “Roda Gigante” é o melhor e mais grandioso filme de Woody Allen desde “Blue Jasmine”, provavelmente trazendo o diretor de volta à disputa por possíveis indicações a prêmios. É um longa memorável, que apesar de um roteiro sem grandes atrações, ganha força pela maneira como é transportado para a tela.

Pôster de divulgação: RODA GIGANTE

Pôster de divulgação: RODA GIGANTE

SINOPSE

Ginny (Kate Winslet), atriz casada com um operador de carrossel (James Belushi), se apaixona pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake) e precisa enfrentar a “concorrência” da enteada (Juno Temple), que aparece inesperadamente fugindo de bandidos e também cai de amores pelo rei da praia.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Woody Allen
Título Original: Wonder Wheel
Gênero: Drama
Duração: 1h 41min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 28 de dezembro de 2017 (Brasil)

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