Roma (Crítica)

Ricardo Rocha

“Roma, cidade aberta”(1945) de Roberto Rossellini foi um marco para o cinema Italiano e mundial e também para o neorealismo. Feito com atores amadores e locações reais. Onde o diretor claramente reivindicava as mazelas de seu povo devastado pela guerra e o quanto suas pessoas eram retratadas cruamente num mundo quase sem esperança.

Em paralelo a isso temos o novo filme da Netflix, feito quase que em sua totalidade por um diretor Mexicano, falado em espanhol, recusado no festival de Cannes de 2018, para enfim ser reconhecido e aplaudido de pé no festival de Veneza, onde saiu com o Leão de Ouro de Melhor Filme, e que agora é um forte concorrente a indicação de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar 2018. Enquanto Roberto Rossellini fazia história com seu filme, Alfonso Cuarón, também está a um passo de fazer história com seu pequeno “Roma” mas grande em sua forma.

É nítido notar como o México de 1971 se parece muito com nosso Brasil atual. É no bairro de Roma, título do filme, onde conhecemos uma família de classe média alta, mais precisamente, onde observamos a rotina de Cléo (Yalitza Aparicio), a empregada da família. E lentamente, com a sutileza de uma pena, entramos naquele universo rotineiro de Cléo, logo na abertura vemos um chão coberto por água cheio de espuma, que espelha uma janela no céu onde passa um avião, aquela pequena porta que se abre através de um mundo muito particular que é vivido por nossa personagem principal, e também por onde é nos apresentado em letras garrafais o nome do filme. Detalhe: tudo filmado em preto e branco.

Os dias passam morosamente, ouvimos apenas os sons dos pássaros, do vento batendo a janela, do sino no carrinho de sorvete na rua, do cachorro latindo no quintal da casa, da água saindo da torneira e passando pela louça suja, existe muito tempo aplicado ao comum, ao cotidiano, as miudezas da vida. Cléo, outrora passeia com sua irmã, pelas ruas agitadas, e a câmera as acompanha com elegância, em travellings desafiadores, mas quando fica estática, é quando o personagem finalmente se mostra em cena para expor algum sentimento, seja esse singelo, seja esse brando, seja esse como uma faísca rápida que escapa da fogueira e tenta nos queimar repentinamente.

Todo esse exercício aqui descrito sobre a primeira hora do filme, serve para mostrar que o diretor Alfonso Cuaron, não quer apenas contar uma história, ele quer nos levar aos acontecimentos que fizeram parte de sua infância, ele quer nos mostrar através de imagens, memórias que outrora lhe traziam poesia, aflição, esperança e tristeza. E tudo sobre o olhar de Cléo.

Não posso deixar de mencionar o quanto o filme explora o lado de duas mulheres opostas, convivendo no mesmo espaço mas com um abismo social gigantesco, de um lado temo Cleo, a empregada, do outro temos Sofia (Marina de Tavira), a patroa. Enquanto vemos Cléo sem nenhuma perspectiva além dos afazeres de casa, vemos Sofia querendo desesperadamente gritar para o mundo o quanto suas aflições estão consumindo seu amor próprio, as duas personagens vão numa crescente de acontecimentos que as fazem querer enxergar como são mulheres independentes e reconhecer uma na outra a força para continuar vivendo.

É preciso dizer antes de mais nada, que todo esse projeto de seu idealizador foi feito com farto carinho, um trabalho digno de se chamar autoral em quase todos os sentidos, em vista que Alfonso Cuaron, dirigiu, roteirizou, fotografou e co-editou o filme. Todos os seus trabalhos, ou melhor, foram 8 longas apenas, passando pelo cult road-movie mexicano “E Sua Mãe Também”(2001), pelo clássico infantil “A Princesinha”(1995), até chegar ao elogiado pela crítica internacional “Filhos da Esperança”(2006), culminando em seu primeiro Oscar como diretor pelo grande sucesso de bilheteria “Gravidade”(2013). Seus planos sequências ousados, marca registrada do diretor e o cuidado em humanizar seus personagens sempre os deixando próximo a nossa realidade, (inclusive em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando permitiu que os protagonistas passassem a maior parte do tempo usando roupas comuns e que se identificassem, assim como o lado mais fragilizado exposto de cada personagem) Foi preciso todos esses filmes, todo esse espaço de tempo para se definir o estilo Cuaron de se filmar, logo nos créditos iniciais percebemos que estamos vendo um filme de Alfonso Cuaron, e eu não tenho nenhuma restrição em ficar repetindo o nome dele várias vezes nesse mesmo parágrafo. Há um trabalho aqui que precisa ser elogiado, visto e principalmente sentido.

Roma é um filme que transcende o imagético, que nos coloca frente as sensações de seus personagens e nos aproxima de um cinema humano e extremamente contemplativo. São tantas as metáforas, desde o nascimento até a morte são vistos em escala grandiosa, e ainda que estamos presenciando uma história sobre a vida, e ainda que seja dentro de um cotidiano particular, é tudo feito com a forma de um épico, e é justo a forma como o diretor enxerga a vida que faz com que uma cena de comemoração ao Ano Novo fuja do comum, e se transforme numa memorável cena sobre o nacionalismo, a preservação do espaço no qual vivemos e o fulgor que reflete a esperança de um mundo melhor.

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