ROMANCE À FRANCESA (Crítica)

Pedro Vieira

Dentro do universo do cinema francês, Emmanuel Mouret é um dos mais famosos diretores de comédia romântica atuais, buscando desenvolver com sensibilidade e um humor leve as suas narrativas. As boas intenções do diretor são notáveis, mas isto não é o suficiente para que seja alcançado um resultado satisfatório, algo que se percebe em seu trabalho mais recente, “Romance à Francesa” (Caprice).

Protagonizado pelo próprio Mouret (um traço comum na filmográfia do diretor), o longa segue Clément, um professor divorciado que parece ter tirado a sorte grande quando começa a namorar a famosa atriz Alicia Bardery (Virginie Efira), por quem ele sempre foi grande fã. A relação dos dois, porém, começa a ser abalada quando uma atriz mais jovem chamada Caprice (Anaïs Demoustier), fica obcecada por Clément.

Graças a alguns diálogos com piadas rápidas e bem contextualizadas – o momento em que Clément conversa com o diretor da escola em que trabalha sobre um possível namorado de Alicia é hilário – e cenas focadas na pantomima, o longa consegue tirar algumas risadas do público, mas nem isto o salva de seu desenvolvimento dramático raso.

Todo o desenrolar do primeiro ato, com Alicia se afeiçoando a Clément, soa estranho e forçado. Afinal, uma artista conhecida como Alicia iria mesmo se interessar por um desajeitado que ela mal conhece como Clément só por causa de uma previsão que lhe fizeram no passado? O roteiro melhora quando Caprice surge e começa a se mostrar como um empecilho para o casal protagonista, suscitando o surgimento de dúvidas em relação ao amor que um sente pelo outro.

Há, entretanto, um clima de “novelão” que permeia toda a narrativa devido à todo o drama romântico que ela evoca – que como já disse, não é nenhum pouco profundo – tornando a produção cansativa. Tal clima é ainda acentuado por dois aspectos distintos do longa. O primeiro é o modo como a narrativa é filmada, geralmente em plano médio e sem grandes movimentações de câmera. O segundo, diz respeito ao seu desfecho, o qual não revelarei mais detalhes, mas que é similar ao desfecho de qualquer novela do horário nobre da Globo.

Outro problema importante diz respeito às personagens femininas. O filme tem duas mulheres diferentes em todos os aspectos entre suas personagens principais e que são colocadas como rivais por causa de um homem – ainda que elas nunca se vejam dessa forma, é assim que o roteiro as trata. Por mais que estejam em momentos distintos de suas vidas profissionais e pessoais, todos os conflitos que elas carregam são movidos por causa de um homem – que pode ou não ser Clément. São mulheres que precisam do falo para se sentirem completas, em uma representação um tanto quanto antiquada do sexo feminino, que faz até mesmo com que o filme não passe no teste Bechdel – só há uma cena de diálogo entre as duas mulheres, e o tópico da conversa, claro, é o homem.

O elemento que melhor se destaca no longa é a boa atuação de seu elenco. Mouret se mostra bastante confortável no papel do professor desengonçado, com seus gestos soando naturais até mesmo nas cenas mais caricatas de seu personagem. O ator ainda possuí ótima química com suas duas protagonistas, em especial com a jovem Demoustier. Por sua vez, Efira encarna com bastante sutileza e confiança o papel da atriz renomada e elegante, além de possuir cenas interessantes com o seu colega de elenco Laurent Stocker.

A trilha sonora que acompanha o longa é agradável, e se assemelha muito às trilhas dos longas de Woody Allen – não por acaso, Mouret é muitas vezes comparado ao diretor americano, ainda que seja contrastante a qualidade e o modo como cada um rege seus filmes.

O figurino dos personagens é um tanto quanto óbvio, mas ao menos consegue construir a personalidade de cada um com autenticidade.

O que se tem com “Romance à Francesa” é um filme que aspira ser uma experiência divertida e simples, mas que falha em graças a um roteiro com personagens previsíveis e que não consegue desenvolver conflitos que forma sem apelar por resoluções fáceis e novelescas.

ROMANCE A FRANCESA

SINOPSE

O professor Clément (Emmanuel Mouret) deveria estar feliz, pois ele finalmente conquistou o coração da bela Alicia (Virginie Efira), uma atriz famosa. Mas, quando o relacionamento anda bem, ele encontra Caprice (Anaïs Demoustier), uma jovem extrovertida que deseja sair com ele e não se importa em ser a amante de Clément. Enquanto o professor corre o risco de perder a namorada, o melhor amigo dele, Thomas (Laurent Stocker), começa a ficar muito interessado na atriz.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Emmanuel Mouret
Título Original: Caprice
Gênero: Comedia, Romance
Duração: 1h 40min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 20 de outubro de 2016 (Brasil)

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