SETE HOMENS E UM DESTINO (Crítica)

Juca Claudino

Western mostra-se alguém que busca por diversidade em Hollywood, mas é marcado mesmo pela busca por explosões e brutalidade.

Esse ano o Oscar definitivamente ficou marcado pelo #OscarSoWhite. Não é para menos quando, de 2011 a 2016, dos 125 indicados às categorias de atuação e direção, apenas 8 foram pessoas negras. Sim, nessa década apenas 6,4% dos nomes indicados às principais categorias individuais eram negros. Claro que a questão se estende para além da Academia – estamos falando de anos de um sistema que é “racista e cruel”, levando “cada vez mais irmãos aos bancos dos réus”, como definiram os Racionais MC’s. E dos vencedores de melhor ator e atriz protagonista, foram apenas 5 na história: Halle Berry como a única mulher negra a ganhar (em 2001, por “Monster Ball”); e Sidney Poitier, Jamie Foxx, Forest Whitaker e Denzel Washington na categoria masculina. Washington ganhou em 2001, com o filme “Dia de Trainamento”, dirigido por Antoine Fuqua – um cineasta afro-descendente. Ambos retornam à produção de um filme juntos com o remake de “7 Homens e Um Destino” (o original é de ’60) e, nesse longa que estreia essa semana nos cinemas, não negam um fato que de fato é inegável: a diversidade e a representatividade na cultura de massa precisam ser debatidas. Mas o “7 Homens e um Destino” de 2016 lida bem com isso?

O fato de escalar os 7 protagonistas do filme sendo liderados por um personagem negro (Denzel Washington), além de fazerem parte do time os atores Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo e Martin Sensmeier, mostra que houve sim um respeito à diversidade durante a produção. Em geral, os bluckbusters timidamente começam a mostrar maior respeito a isso inclusive, mas timidamente. Se em alguns momentos do roteiro de “7 Homens e Um Destino” existem falas que propõe expor as feridas racistas da América (em especial a do Norte, obviamente), elas são pouquíssimas e a atitude de denúncia do longa acaba por aí. Uma pena que, em tempos de Trump, não vejamos uma Hollywood mais incisiva na luta contra a ignorância racista. Tempos de Trump lá e muitos no nosso parlamento aqui, devo dizer. Não que alguma vez a indústria de Hollywood tenha lutado contra o preconceito de forma incisiva – aliás, muito pelo extremo contrário -, mas estamos hoje no século XXI, no século das diversidades, no qual até mesmo o Oscar está tendo de rever seu histórico de exclusão às minorias.

Para ser mais justo, a primeira cena desse longa de Fuqua pode ser entendida como visão crítica aos empresários dos tempos pós-2008, já que o vilão vivido por Peter Sarsgaard invade a aldeia e inicia um discurso totalmente pró-capitalista ao mesmo tempo que rouba as casas dos aldeiões – bem como a crise de 2008, a crise do neoliberalismo, fez em relação a diversos cidadãos quanto a seus imóveis – e de resto não há mais denúncias. Apenas demonstrações de moralismo e heroísmo.

Bom, se esse filme é um remake do filme homônimo de 1960, dirigido por John Sturges, é impossível não os comparar. Até porque seria uma forma de comparar a Hollywood de 50 anos atrás, em plena Guerra Fria, com a Hollywood de hoje. A história todos já sabemos, uma vez que é adaptada do filme de 1954 “Os Sete Samurais” (do mestre Kurosawa): conta a lenda de um vilarejo que, ao sofrer ameaças de invasão de suas terras por um grupo de ladrões forasteiros, contrata sete pistoleiros e assassinos profissionais para defenderem suas plantações e seus lares. Não irei usar o filme de Kurosawa como comparativo nesse texto, mas vale, obviamente, a citação de um dos trabalhos mais belos da história do cinema. Fato é que, comparado ao longa de ’60, esse “7 Homens…” é muito mais eficiente quanto a eletricidade e a rusticidade que impõe ao embate, além de dar uma abordagem mais física a este. Quanto à sensibilidade na narrativa, o primeiro “7 Homens…” incorpora muito mais desse elemento: a expressividade da fotografia, que nos transporta ao espaço ermo e solitário do oeste cinematográfico com maior melancolia, e a sutileza que o filme de Sturges explora para desenvolver com mais carisma as relações entre os aldeiões e seus 7 protetores dão lugar no filme de Fuqua ao grotesco e à sanguinolência exarcebada. Não estou afirmando que o filme de ’60 não era um filme bruto e violento, mas a violência e a bruteza desse de 2016 não é comparável às da versão original – é muito superior.

“7 Homens e Um Destino” de 2016 é um filme de ação pirotécnico. Abusa das cenas dinâmicas, dos cortes rápidos, dos sons estrondosos dos tiroteios e das tomadas de explosões. É um espetáculo físico, que nos pretende cativar naquele momento com tamanho caos e, logo, tem catarse meramente imediata. De resto, sobra a romantização dos personagens, contagiante o suficiente para nos fazer torcer por eles e garantir o entretenimento. Mas a presença e a intensidade de cada personagem parece se esmaecer em comparação a versão de ’60, protagonizada por Yul Brynner e Steve McQueen. E não é por culpa da atuação, que está agradável, mas sim pois o espaço de cena de cada personagem, além da forma como o filme dialoga com seus âmagos e suas motivações, parece os tornar meras construções superficiais de arquétipos avulsos. Com exceção de Denzel Washington, que encarna aqui um sábio, sereno e estóico ex-militar do Norte na Guerra de Secessão; Chris Pratt, um narcisista debochado e inconsequente; e Ethan Hawk, um vigarista, individualista e egoísta; todos os outros personagens parecem pouco interessantes e importantes – e mesmo esses três com mais tempo de tela não nos empolgam tanto a torcer por suas sobrevivências em comparação ao filme de ’60, que ainda tinha um dos maiores atores de cenas de violência da história, Charles Bronson (uma espécie de “pai” para os Liam Neeson e Steve Seagal da vida), no elenco.

O que sobrevive em “7 Homens e Um Destino”, de Antoine Fuqua, é, em última instância, o “freak show” das cenas de ação. Um “freak show” empolgante e não muito original. Mesmo que Fuqua tenha alcançado um trabalho que sabia aliar rusticidade e personagens bem desenvolvidos dramaticamente em “Dia de Treinamento”, aqui ele privilegia o tiroteio. Aos que amam isso, vale a pena o ingresso, embora não haja nenhum diferencial neste “7 Homens…” quanto aos outros filmes de ação já feitos.

Por fim, mais dois comentários. Percebam que não há mulheres dentre os “sete” (o título original é “The Magnificent Seven”, “Os Magníficos Sete”, logo não era o título um empecilho a isso). Mas, diferentemente do filme de Sturges, no qual as personagens femininas eram representadas não só de uma forma bem submissa como também, dava a entender, de uma forma a naturalizar um tratamento abusivo pelos homens, esse aqui cria uma personagem feminina forte e que quebra, mesmo que minimamente, o tabu: Emma Cullen, interpretada por Haley Bennet, pega às armas e luta, assim, não só contra os homens capachos do vilão como também contra o machismo daquela (e de nossa) sociedade. Isso significa que ela recebe um tempo de tela superior ou relativamente igual aos dos personagens masculinos? Não. Infelizmente não. O outro comentário era sobre o fato do vilarejo da versão de ’60 ter uma população latina e o grupo de forasteiros, liderados pelo bandoleiro Calvera (Eli Wallach), ser mexicano. Fuqua cria um vilão W.A.S.P., porém, um vilarejo de população W.A.S.P. Por mais que haja um personagem de origem latino-americana na história dirigida por Fuqua (e por mais que Calvera seja interpretado por um nova-iorquino sem origem latina no filme de Sturges), o roteiro de 2016 tirou de cena qualquer traço da cultura popular mexicana – coisa a qual o filme original dava enorme brecha. Novamente, em tempos como esses, devemos lutar pelo respeito às diversidades e pelos direitos de todos (e não ser passivo a uma segregação, seja com um muro na fronteira, seja com as oportunidades no mercado de trabalho).

SETE HOMENS E UM DESTINO

SINOPSE

Refilmagem do clássico faroeste Sete Homens e um Destino (1960), que por sua vez é um remake de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Os habitantes de um pequeno vilarejo sofrem com os constantes ataques de um bando de pistoleiros. Revoltada com os saques, Emma Cullen (Haley Bennett) deseja justiça e pede auxílio ao pistoleiro Sam Chisolm (Denzel Washington), que reúne um grupo especialistas para contra-atacar os bandidos.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Antoine Fuqua” espaco=”br”]Antoine Fuqua[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Richard Wenk, Nic Pizzolatto
Título Original: The Magnificent Seven
Gênero: Faroeste, Ação, Aventura
Duração: 2h 13min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 22 de setembro de 2016 (Brasil)

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