She-ra e as Princesas do Poder | (Crítica)

Pedro Vieira

Com a recente popularidade dos super-heróis nas mídias, cada vez mais esses seres superpoderosos ganham novos rostos, cores e formas. Homens brancos não são os únicos a terem a chance de protagonizar histórias na TV e no cinema, com cada vez mais mulheres e pessoas de diversas etnias reivindicando esse direito. É na trilha desse movimento que surge “She-ra e as Princesas do Poder”, reimaginação da Netflix para a clássica heroína dos anos 80.

Comandada pela cartunista Noelle Stevenson junto de um time de roteiristas e diretores majoritariamente feminino, a nova “She-ra” transforma a história de Adora, uma jovem capaz de se transformar na personagem do título com a ajuda de uma espada, em um verdadeiro modelo de heroísmo para a atual geração de meninas. Com boa parte dos episódios focados na amizade da protagonista e suas companheiras guerreiras, a obra apresenta um grupo de mulheres fortes e de personalidade distintas.

Os corpos dessas guerreiras também são diversos. Com um visual mais cartunesco que o desenho dos anos 80, a série abandona o físico predominantemente magro das personagens femininas do desenho antigo para apresentar mulheres de diversos corpos (algo similar ao que a animação ‘Steven Universo’ tem feito). Desse modo, She-ra e suas amigas surgem atualizadas para um público que não aceita mais se identificar apenas com um padrão imposto por anos na sociedade.

A representatividade feminina é tão forte que mesmo entre os vilões ela aparece. Embora a Horda, organização que antagoniza com a Rebelião das princesas da qual Adora/She-ra faz parte, seja liderada por um homem (o misterioso Hordak), são as mulheres desse grupo que fazem com que a trama se desenvolva. Personagens como Sombria e Felina são os verdadeiros cérebros por trás das maldades da Horda e frequentemente enfrentam as princesas cara a cara.

She-ra e as Princesas do Poder | (Crítica)

Há certa tentativa da série em modificar o estigma que se tem em relação ao conceito do que é uma princesa, mostrando todas as princesas como opostas à ideia de uma mulher indefesa. Entretanto, a série não é realmente inovadora nessa questão, já que personagens como Fiona (Shrek), Diana (Mulher-Maravilha) e até mesmo princesas Disney como Elsa e Mulan, já tem feito isso ao longo dos últimos anos. Talvez o grande mérito de “She-ra” nessa questão seja transformar o título de princesa em um sinônimo para heroína.

A animação é bem fluída, suas cores são vibrantes e os cenários que compõem a história tornam cada episódio um deleite para os olhos. A trilha sonora de Sunna Wehrmeijer também é um destaque e confere à série certa identidade perante as outras animações do gênero (e talvez uma ou outra faixa da trilha fique na cabeça do espectador após o final de um episódio).

Ainda que a história se desenvolva de forma envolvente, há a repetição de certos elementos e estruturas narrativas, principalmente no começo da temporada, quando Adora precisa aos poucos conhecer as princesas integrantes da Rebelião. Trata-se de algo que provavelmente não incomodará os pequenos, mas que pode ser um problema para os mais velhos que podem pensar que a série ficará eternamente em um looping narrativo.

Felizmente, Stevenson e sua equipe sabem como criar pequenas reviravoltas e prender o espectador antes que qualquer problema maior aflija a série. O último episódio da temporada, por exemplo, é uma ótima execução de uma história que é construída aos poucos até chegar a um ápice. Uma pena que justamente nesse episódio a série busque uma resolução um tanto quanto batida para os problemas da protagonista pautada no “poder da amizade” (novamente, é algo que não incomodará os menores, somente os mais velhos). Entretanto, trata-se de uma solução aceitável para a primeira temporada de uma animação infantil e muito provavelmente veremos resoluções melhores em episódios futuros.

Honrando o legado da famosa heroína dos anos 80, “She-ra e as Princesas do Poder” é uma série atual, capaz de dialogar com seu público alvo e um dos grandes acertos do ano da Netflix em relação a seriados animados.

Pôster de divulgação: She-ra e as Princesas do Poder

Pôster de divulgação: She-ra e as Princesas do Poder

FICHA TÉCNICA

Título Original: She-Ra and the Princesses of Power
Ano: 2018
País: EUA
Criação: Noelle Stevenson
Direção: Noelle Stevenson
Elenco: Aimee Carrero, Karen Fukuhara, AJ Michalka e grande elenco
Duração: 13 episódios de 24 minutos cada

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