SINFONIA DA NECRÓPOLE (Crítica)

Juca Claudino

A MORTE SAI PARA DANÇAR

Juliana Rojas tem apenas 34 anos e merece muito a nossa atenção. Após estrear na direção de um longa com uma parceria entre ela e o diretor Marco Dutra em “Trabalhar Cansa” (2011), com o qual foi selecionada para a mostra “Un Certain Regard” (Um Certo Olhar, em francês) do Festival de Cannes – uma das mais importantes abaixo da seleção principal – aqui faz seu primeiro longa solo e consegue um resultado fascinante. Porém, se em “Trabalhar Cansa” fez um filme de terror, aqui parece brincar com essa coisa de “cinema de gênero”. “Sinfonia da Necrópole”, como até mesmo o título, de certa forma, sugere, acaba sendo uma deturpação satírica do senso comum previsto para um filme musical: ela brinca com a idealização, com os padrões de beleza, com a perfeição ultrarromântica que esse gênero traz consigo em seu estereótipo hollywoodiano. “Sinfonia da Necrópole” retrata um cenário paulistano e periférico, e traz sobretudo uma forte crítica à especulação imobiliária e a como o mercado reage, de forma desumana e grotesca, aos conflitos da sociedade: em um momento onde a previsão diz que é necessário acomodar mais mortos no cemitério, o plano é verticalizar os túmulos, realocando de forma sistemática os mortos já acomodados (nem os mortos são poupados da especulação) – essa coisa de verticalização, já ouviu em algum lugar? Bom, fato é que Rojas faz algo divertidíssimo, com um roteiro inteligente e original: o filme, além de tudo, é envolvente com sua trama e carismático com seus personagens e números musicais.

O tema dos conflitos sociais e trabalhistas não é algo novo na carreira da jovem Juliana Rojas. Ao lado de Marco Dutra, na sua estreia em longas, já havia debatido isso com “Trabalhar Cansa”. E nessa sua primeira experiência como diretora solo, Rojas, agora de forma mais leve (pelo fato do filme ter sido construído como comédia talvez) aborda, como uma grande caricatura, um debate acerca da especulação imobiliária a primeiro momento, mas claro, algo que abre para um debate ainda mais ácido sobre a relação entre mercado e sociedade. Com o crescimento da possível “demanda de mortos” procurando pelo cemitério e a infraestrutura insuficiente para colocá-los todos lá, um bizarro plano de verticalização do cemitério é posto em prática. Os mortos, então, serão realocados de seus lugares originais, e a paz eterna, portanto, será incomodada graças a uma reforma espacial que visa atender a um especulado número de consumidores. Porém você acha que os mortos vão gostar de sofrerem tamanha insensibilidade: cadê a dignidade deles? É, de fato, a especulação sendo caricaturada, porém mais do que isso é uma crítica certeira aos rumos da cidade frente aos interesses mercadológicos: insensivelmente, muitas vezes desumanamente, por uma questão de lucro, o capital se apropria dela e comanda suas transformações, por mais que de forma injusta.

Mas não é só de crítica à especulação imobiliária que o filme vive. “Sinfonia da Necrópole” tem um excelente tom descontraído e isso se deve a diversos fatos. O mocinho do filme é um aprendiz de coveiro morador da periferia paulistana e o seu par romântico é uma agente do Serviço Funerário da Cidade de São Paulo (par romântico esse que definitivamente não é uma indefesa dependente do herói masculino para tudo). O cenário do musical é, ao invés daqueles jardins verdes e vivos dignos de um filme de Vincent Minelli, um cemitério rodeado pela selva de pedra paulistana e, por fim, Rojas usa uma linguagem um tanto trash para seu filme – inclusive lembrando o cinema da Boca do Lixo em alguns momentos. Assim, o longa brinca com o estereótipo e a visão do senso comum sobre o gênero “musical”, desmentindo toda aquela “idealização” à la Hollywood que películas como as estreladas por Gene Kelly e Leslie Carol traziam, com toda aquela perfeição pautada nos padrões de beleza e afins – e assim na tela mostrando um grupo de pessoas cuja representatividade na mídia é, se não mínima, desrespeitosa. Mas é incrível como, além de tudo, Rojas consegue criar personagens carismáticos e uma história interessante. Deodato, o jovem aprendiz de coveiro, e Jacqueline, a responsável por comandar a reforma no cemitério, assim como todo o “universo” representado por Rojas ali é um divertido retrato do cotidiano em uma cidade grande, trazendo personagens e situações que de certa forma retratam com bastante humor suas peculiaridades. Assim, por mais que o filme tenha um visual até mesmo frio e um tanto gélido, a atmosfera caricata e levemente divertida se mantém durante todo o longa.

Assistir a “Sinfonia da Necrópole” é uma experiência e tanto. Ácido quanto à crítica, divertidamente empolgante quanto ao seu desenvolvimento narrativo. Todos ali são extremamente carismáticos e apaixonantes, talvez porque sejam personagens reais, com um olhar de mundo, paixões e desejos próximos aos nossos, sem qualquer idealização ou rebaixamento moral. Além do mais, são personagens extremamente risíveis: um padre que come a hóstia quando está com fome, o velhinho que já não bate tão bem assim das ideias, o patrão narcisista… Juliana Rojas já está envolvida em novos projetos, e deve ganhar cada vez mais atenção neles. Aqui o que faz é algo realmente encantador.

SINFONIA DA NECROPOLE

SINOPSE

Deodato (Eduardo Gomes) é um aprendiz de coveiro não muito animado com a profissão. Sua rotina melhora quando Jaqueline (Luciana Paes) surge no cemitério. Funcionária do serviço funerário, ela inicia um levantamento sobre túmulos abandonados com a ajuda do rapaz. A paixão o impede de pedir demissão, mas estranhos eventos continuam a abalar seu estado psicológico.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Juliana Rojas” espaco=”br”]Juliana Rojas1[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Juliana Rojas
Título Original: Sinfonia da Necrópole
Gênero: Musical, Comédia dramática, Romance
Duração: 1h 34min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 14 de abril de 2016 (Brasil)

Comente pelo Facebook

1 Comentário

  1. Paulo cezar

    Achei por acaso esse filme no YouTube baixei e assisti, achei fantástico, me identifiquei com o dia a dia dum cemitério (pois ja trabalhei dois anos num). AQUELa musica dos coveiros amei. ja recomendei pra outras pessoas. ……Parabéns para o elenco e juliana.