THELMA E LOUISE (Crítica)

THELMA E LOUISE

4estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Thelma and Louise
Ano do lançamento: 1991
Produção: EUA
Gênero: Comédia dramática, Aventura, Suspense, Ação
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Adrian Biddle, Callie Khouri, Elizabeth McBride

Sinopse: Cansadas da vida monótona que levam, duas amigas, uma garçonete quarentona (Susan Sarandon) e uma jovem dona-de-casa (Geena Davis) resolvem deixar tudo para trás num fim de semana. Mas no caminho se envolvem em encrencas e acabam sendo perseguidas pela polícia.

Por Guilherme Ramos

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É um bom filme. Antes de mais nada, devo ressaltar: a trilha sonora comercial é SENSACIONAL! E a música do filme é assinada pelo mestre Hans Zimmer. Então caso você assista e não goste do filme, ao menos seus ouvidos estarão em boas ondas. Mas não é o caso aqui, você provavelmente vai gostar sim [nem que seja um pouquinho] deste filme. Não estamos falando de uma obra-prima, mas de um filme agradável, com uma história que é bem levada pelas mãos de Ridley, e uma trama bem escrita também. Soma-se a isso a fotografia, que em tomadas abertas não poderia ser mais bonita, pois este é um típico road-movie, logo, cenas de paisagens pitorescas e longas estradas livres, com o carro ao vento, ao melhor estilo “Easy Rider” ou “Medo e Delírio em Las Vegas”, estão presentes.

Para quem já assistiu “Tomates Verdes e Fritos”, vai se lembrar daquele mote, a mulher recatada que leva a vida média burguesa, nos padrões americanos (ainda mais do sul dos EUA, altamente conservador e machista), mas que um dia cansa de tudo e resolve despirocar total! É mais ou menos isso o que provoca toda o desenrolar da história, com a diferença de que aqui, em “Thelma & Louise”, é mais expansivo e até escrachado este momento de libertação e loucura. Acaba sendo caricato em algumas cenas. O que, aliás, dá o tom leve ao filme, apesar dos atos praticados pelas duas protagonistas serem pesados (se fossem colocados num outro gênero de filme, é o que quero dizer). Duas garotas que de uma vida comum e monótona, em um dado momento se tornam verdadeiras malucas à la “Faster, Pussycat! Kill! Kill!”. Tarantino faria bom uso dessas personagens. Mas Scott, ao seu modo, também o fez. Quanto às personagens, Geena Davis está no papel de Thelma, enquanto Susan Sarandon incorpora Louise. As duas estão bem à vontade. Talvez a personagem de Thelma seja a mais difícil de desenvolver, pois ela possui dois momentos psicológicos distintos, mas Geena fez essa transição, do bom comportamento à inconsequência total, de uma maneira natural, fazendo aquela mulher, dona de casa, mulher de um homem só a vida toda, mudar completamente seu caráter. A personagem mostrou que foi sincera consigo mesma (e com o espectador, que não verá uma alteração de ânimo forçada) desde o início da viagem no que diz respeito a querer realmente sair daquela vida, encontrar um ar fresco, mas que ao caminhar das coisas percebe que não quer mesmo, de todo modo voltar à condição anterior. Ela perceber, descobrir isto é o que foi passado de uma maneira natural ao espectador, e não de uma forma que aparenta ser repentina, deixando altamente artificial a mudança, como se fosse uma coisa fácil, para empurrar a história do filme. Gostei. Quanto aos homens, temos um show de bons atores: Harvey Keitel, Michael Madsen e Brad Pitt (eu falo que este filme tem um “Q” de Tarantino, olha só o trio). Keitel faz o agente de polícia que persegue as duas garotas. Michael faz o negligente, porém arrependido, namorado de Louise. E Pitt o papel do malandro, que procurando um golpe, acabou arranjando também uma bela noitada e contribuindo para a mudança de espírito de Thelma. O filme tem algumas passagens forçadas. Como a cena do assalto ao mercadinho de beira de estrada. Ou a lição dada ao caminhoneiro. Não por isso são sequências que destoam do filme, ou que não sejam divertidas. E falando em cenas divertidas, a que leva o troféu, para mim é a do ciclista e seu charuto de maconha (sim, só posso falar isso, se não entrego spoilers, mas deixa o gostinho aí na sua boca). Voltando à história: Thelma era a dona de casa de classe média com um marido machista e ausente, de vida monótona e sem novidades. Louise, era garçonete numa lanchonete da cidade, amiga de Thelma, com uma cabeça mais libertária e, uma má influência para Thelma, segundo seu marido. Louise tinha um namorado, Jimmy (Michael Madsen), mas com quem brigava frequentemente e que também era um homem machista e negligente. Sua vida não seria muito diferente da de Thelma caso ela tivesse casado. As duas então concordam em passar um final de semana na casa de campo do chefe de Louise, que está emprestando a casa aos amigos pois estava prestes a vender. No caminho, no entanto, param num bar de beira de estrada, e acontece um primeiro momento de libertação, e quando Thelma começa a perceber aquilo que eu falava, ou seja, que pode ter mais diversão na vida. Porém, logo na primeira, como diria Renato Russo, “ela dançou, e pro inferno foi pela primeira vez”. As duas caem na real, depois que o rapaz mostra sua verdadeira face, tenta estuprar Thelma, e Louise a salva com a arma que Thelma mesmo tinha trazido de casa por precaução. Mas tudo sai errado quando Louise, provocada, não se controla e acaba matando o homem. Até aqui não contei nada demais, sem spoilers, porque é o que está na sinopse do filme. Há outros “infernos” pelos quais as duas irão passar no filme, o road-movie se desenrola desde este fato, os policiais entrando no encalço das duas e descobrindo fatos aos poucos, enquanto elas sem rumo correm a bordo de um belíssimo Thunderbird 66 pelas estradas do sul dos EUA.

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Tem duas horas e meia de história, e as quais você vê passar com muito bom gosto, pois o filme é um entretenimento agradável, com uma ótima trilha sonora, cenas simples, outras cômicas (com umas sacadas singelas, naturais mesmo; só para citar duas: a que tem a frase “women like these shit” e uma em que os policiais estão assistindo TV na sala), a trama não é tão óbvia quanto parece, existem algumas reviravoltas, surpresas pequenas, que dão o tom ao filme, um tom de vida cotidiana, de liberdade e relações humanas, tudo misturado, como um mestre Robert Altman também fazia com os seus. O final é ótimo também, não poderia ser mais adequado à ideia do filme. Mas esteticamente falando, o final alternativo (nos extras do DVD) é melhor ainda, principalmente se você assistir com os comentários de Ridley, justificando porque não escolheu este como o definitivo (deveria ter escolhido, na minha opinião, e suas justificativas não me convenceram, diga-se de passagem). Quero dizer, a ideia do final, tanto do definitivo quanto do alternativo, é a mesma, ou seja, aquilo que creio que melhor se adequaria ao filme, mas a estética do final alternativo, se adequa também à ideia, enquanto o final definitivo meio que “broxou” a ideia por causa da sua estética muito “encantada”, muito “Disney”, na minha mais humilde opinião. Mas isto é um detalhe, e no fim das contas, estamos diante de um bom filme das mãos de Rodley Scott, mas não diria que é uma pérola. Um adendo: não se engane com a sinopse, o filme é bem mais interessante do que a sinopse sem graça na contra-capa mostra. O trabalho é de 1991, quase dez anos depois de “Blade Runner”, e entrando na fase noventista de Ridley, durante a qual ele ainda conceberia “1942”, “Tormenta” e “Até o Limite da Honra”. Julgo o “Thelma & Louise” o melhor dessa era.

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PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Roteiro Original

Indicações: Atriz – Geena Davis e Susan Sarandon, Fotografia, Direção, Montagem

GLOBO DE OURO
Ganhou: Roteiro

Indicações: Atriz de Drama – Geena Davis e Susan Sarandon, Melhor filme de Drama

MTV MOVIE AWARDS
Indicações: Melhor dupla e Melhor Interpretação feminina – Geena Davis

DIRECTORS GUILD OF AMERICA
Indicação: Melhor Direção

TRAILER

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