TUDO E TODAS AS COISAS (Crítica)

Juca Claudino

“Tudo e Todas as Coisas” é bem menos pretensioso do que o título propõe. E não estou falando de orçamento: nada de épicos faraônicos, efeitos especiais e cenários megalomaníacos, como um “Batman vs Superman”. Chega a ser curioso vermos um filme estadunidense de apelo comercial, um “bluckbuster” de Hollywood, que não se paute na grandiosidade visual e na grandiloquência dos feitos heróicos hoje em dia. “Tudo e Todas as Coisas” não é um espetáculo visual, um freak show como a cena do aeroporto de “Guerra Civil”. É uma história centrada no drama dos personagens e na sua narrativa, contido em eventos cotidianos e ordinários. Nesse aspecto, muito mais comedido.

Contudo, “Tudo e Todas as Coisas do Mundo” é menos pretensioso que o seu nome porque se resume a representação romântica de um amor impossível. Talvez uma forma de dizer que o amor supera a tudo e a todos, porém esta ideia também já não passa de um cliché pronto o qual o filme repete sem nenhuma originalidade ou autoria. E eis o grande problema do filme, que não é o fundo “raso” de sua narrativa, mas o fato deste ser reproduzido sem qualquer originalidade ou autoria, afogando-se na sua linguagem cinematográfica industrialmente massificada e protocolar.

O filme narra a vida da garota Maddy Whittier, vivida por Amandla Stenberg, que quando bebê foi diagnosticada com Síndrome da Imunodeficiência Combinada, doença rara a qual lhe deixaria muito incapaz de combater vírus e bactérias como o sistema imunológico da média das pessoas o faria. Tal fato faz com que sair de casa fosse algo muito arriscado a sua saúde. Sua casa é completamente higienizada, inclusive o ar que lá corre é substancialmente filtrado – sem contato com o ar de fora dessa. Maddy vive lá sem riscos a sua vida, contudo sem poder pôr o pé para fora e, assim, conhecer qualquer lugar ou pessoa. Contudo, quando seu vizinho, Olly (Nick Robinson), e Maddy se avistam, estes se apaixonam e começam a conversar por celular – além dos costumeiros olhares pela janela. Valeria a pena colocar sua vida em risco e ir ao mundo fora de sua casa pelo amor?

Acaba por ser repetitivo citar, mas “Tudo e Todas as Coisas” acaba por ter atuações demasiada levadas pela cafonice atreladas a falas notoriamente apáticas, o que, por si só, já tornam o filme algo um tanto mais desinteressante daquilo que poderia ser. A expectativa para que Maddy e Olly fiquem juntos é por muito tomada pela apatia dos seus personagens, os quais não conseguem sair de um estereótipo idealizado que com tamanha artificialidade pouco consegue atrair alguma afeição. O apelo do amor platônico soa cansativo e repetitivo pelo viés sem originalidade que este é trabalhado pelo roteiro.

Embora a situação de extrema complexidade carregue alguma empatia – o que não deixa de ser aquela escolha de um drama de isolamento social radical um apelo bem grande do roteiro – vale lembrar que tudo é tratado com total leviandade e superficialidade. O que quero dizer com isso é que há muita leveza e sutileza na carga emocional desenrolada pelo filme – sobretudo nas atuações – para atitudes e acontecimentos cujo teor trágico para a vida da mãe da jovem (que já perdera o esposo e o outro filho em um acidente), para Maddy e para Olly é imensamente grande. Essa superficialidade e imprudência são imensamente decepcionantes. Abandona-se toda a carga trágica necessária a uma história de amor para manter o clima bem-humorado e otimista. E não estou apenas falando da forma a qual Maddy encara seu isolamento social e sua auto-estima decorrente deste. Ocorrem outros eventos no filme que justificarão essa irresponsabilidade nas representações e no teor trágico que estou falando, mas que não devo adiantar para não revelar spoilers.

O filme estaciona em representações animadas, leves, uma versão “clean” da vida. Tudo é tão perfeito e romântico que parece por vezes um comercial de manteiga. E, obviamente, esta apatia em explorar as tramas do filme com um fim de gerar maior carga emocional é uma forte causa da apatia do longa.

A escolha por um cinema protocolar, de frases prontas e repetitivo na sua narrativa, sem a menor vocação que não fosse utilizar a linguagem cinematográfica padronizada pelos moldes comerciais, recitando frivolamente as fórmulas desse padrão sem com isso explorar qualquer singularidade, originalidade ou criatividade tornam “Tudo e Todas as Coisas” nada mais que um filme estacionado nos moldes banais de cinema massificado de Hollywood.

Poucas cenas conseguem sair do protocolar e da repetição fria de estereótipos. A fotografia é tão protocolar quanto, e com isso é extremamente apática. Não há apelo autoral ou dramático na sua estética. Sua trilha sonora, por vezes, apela a músicas “teen” que ficam fora de contexto na narrativa. O que vemos é uma vontade de vender um arquétipo perfeito de vida, romantizado e ideal, a partir de um entretenimento que vende a ilusão do “felizes para sempre” do começo ao fim.

Mas, obviamente, com este texto não pretendo ofender a nenhuma pessoa que tenha qualquer tipo de complicação de saúde rara. Toda solidariedade é necessária neste momento.

E não poderia terminar este texto sem terminar de falar que este, como poucos filmes dos que entraram em cartaz esse ano no circuito de São Paulo, é um filme protagonizado por uma mulher negra. Sobretudo em um filme de apelo comercial, lançado em “grande circuito”. Ainda é difícil, de longe, mas muito de longe, comparar as oportunidades que um branco recebe na indústria cinematográfica e as que um negro recebe. Não só na indústria cinematográfica, não preciso dizer… Como dito por LeBron James, “ser negro nos Estados Unidos é difícil” e definitivamente não é só na terra do Tio Sam.

Pôster de divulgação: TUDO E TODAS AS COISAS

Pôster de divulgação: TUDO E TODAS AS COISAS

SINOPSE

Maddie (Amandla Stenberg) está prestes a fazer 18 anos, mas ela nunca saiu de casa. Desde a infância, a jovem foi diagnosticada com Síndrome da Imunodeficiência Combinada, de modo que seu corpo não seria capaz de combater os vírus e bactérias presentes no mundo exterior. Ela é cuidada com carinho pela mãe, uma médica que constrói uma casa especialmente para as necessidades da filha. Um dia, uma nova família se muda para a casa ao lado, incluindo Olly (Nick Robinson), que se sente imediatamente atraído pela garota através da janela. Maddie também se apaixona pelo rapaz, mas como eles poderiam viver um romance sem se tocar?

DIREÇÃO

  • Stella Meghie Stella Meghie

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: J. Mills Goodloe
    Título Original: Everything, Everything
    Gênero: Romance, Drama
    Duração: 1h 37min
    Classificação etária: 12 anos
    Lançamento: 15 de junho de 2017

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