TUDO PODE DAR CERTO (Crítica)

Andressa Gomes

FICHA TÉCNICA

Título Original: Whatever Works
Ano do lançamento: 2009
Produção: EUA, França
Gênero: Comédia
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Classificação etária: 14 anos

Sinopse: Boris Yellnikoff (Larry David) é um velho rabugento que tem o hábito de insultar seus alunos de xadrez. Ex-professor da Universidade de Columbia, ele considera ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Um dia, prestes a entrar em seu apartamento, Boris é abordado por Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), que lhe implora para entrar. Ele atende ao pedido, a contragosto. Percebendo sua fragilidade, Boris permite que ela fique no apartamento por alguns dias. Ela se instala e, com o passar do tempo, não aparenta ter planos de deixar o local. Até que um dia lhe diz que está interessada nele.

TUDO PODE DAR CERTO

A obra Tudo pode dar certo, lançada em 2009, marca a volta de Woody Allen a Nova York, sua cidade natal, após um intervalo de quatro filmes realizados em solo europeu (Ponto Final – Match Point, Scoop – O Grande Furo, O Sonho de Cassandra, Vicky Cristina Barcelona). Com essa história, Woody Allen não tem pretensão de ser realista ou perfeitamente verossímil. Trata-se de um conto em formato audiovisual, uma reflexão a respeito de como o ser humano sempre pode se reinventar e buscar novos sentidos para sua existência.

O protagonista é Boris Yellnikoff (Larry David), um físico nuclear aposentado. Ele vive em Chinatown e trabalha como instrutor de xadrez em alguns dias da semana. Seu maior passatempo é filosofar com um grupo de amigos a respeito dos mais diversos temas: Religião, política preconceito, relacionamentos, etc. Boris passa mais tempo falando do que escutando os outros pontos de vista ao seu redor. Considera-se um gênio, rodeado de ignorantes e já tentou suicídio uma vez. Sua vida muda quando conhece a jovem Melody (Evan Rachel Wood), uma jovem que vem do interior cheia de sonhos e é a verdadeira antítese de Boris. Ela acredita nas pessoas e no mundo. Os dois acabam se envolvendo. Ela não tem qualquer interesse ou motivação que não seja o fascínio pela inteligência e pelas ideias de Boris. Diferente de seus amigos, ela não o reduz a um ser pessimista ou rabugento.

O diretor opta por quebrar a quarta parede e dar a consciência da existência de um público somente para o personagem Boris. Desse modo, ele se refere e se dirige diretamente aos espectadores e se apresenta através de um monologo. O personagem já deixa claro desde o início sua visão niilista do mundo já que não tem fé na humanidade ou no futuro. Ele informa que este não é um filme feito para as pessoas se sentirem bem, critica a necessidade e obrigação de se entreter o espectador e relembra o fato do público estar colaborando ainda mais para a riqueza dos produtores do filme. Boris pode ser considerado um alterego do diretor Woody Allen, que já deu vida a personagens semelhantes em outras obras como Annie Hall. Ele é narcisista, rabugento e ressente o fato de “quase” ter ganho um prêmio Nobel há anos atrás e relembra com ironia como o seu casamento deu errado pelo fato de ele e a ex serem muito perfeitos um para o outro. Em suma, ele considera a vida insuportavelmente complexa.

Boris e Melody aceitam um ao outro como são e aprendem a lidar com suas infinitas diferenças. Ela lida bem com as constantes críticas feitas por ele e é feliz e consciente de sua ignorância. O casal é rodeado por diversos personagens interessantes que nos são apresentados aos poucos, como Marietta (Patricia Clarkson) e John (Ed Begley Jr), pais de Melody,os colegas de Boris: Brockman (Conleth Hill) e Perry (John Gallagher Jr.) , e Randy (Henry Cavill).Todos buscando encontrar o que lhes faz feliz.

Nova York, mais do que cenário, também é personagem, uma força motora na história, responsável pela transformação dos que nela chegam. As experiências únicas que a metrópole oferece ajudam os personagens em seu processo de auto -aceitação e de busca pela felicidade. Personagens como Marietta chegam a cidade com uma visão limitada em relação a vida e aos poucos se deixam levar pela festividade e amoralidade característicos da metrópole retratada.

A vida é complexa, sendo ao mesmo tempo grandiosa e efêmera, bela e insignificante. Como já disse Woody Allen em uma obra anterior, Match Point: “As pessoas têm medo de admitir o quanto grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar quantas coisas estão fora do nosso controle”. Nós não temos domínio sobre nossa sorte ou falta de sorte nem meios para encontrar todas as respostas para as questões que nos afligem. Diante dessa escassez de sentido e de explicações do porque as coisas acontecem, o melhor a fazer para se viver bem e feliz é se contentar com sua própria sorte, apreciando aquilo que se tem, por mais insignificante que possa parecer. De nada adianta divagar, remoer arrependimentos, ou tentar buscar a perfeição em qualquer pessoa ou área da vida. O melhor é investir naquilo/em quem te faz feliz, sabendo que mesmo quando as coisas estão difíceis, tudo pode dar certo, dependendo de como se enxerga as situações.

Podemos encontrar na obra diversos elementos que marcam o estilo do diretor: Diálogos inteligentes e satíricos(Os personagens se revelam ao público através dos diálogos, mas do que através das ações, e de cortes e outros recursos cinematográficos),Jazz na trilha sonora, narrativa ágil e direta, pessimismo com relação ao amor e relacionamentos, referências a literatura e a cultura pop. Uma curiosidade que cabe destacar é o fato de Allen se declarar leitor de Machado de Assis, autor modernista e mestre no uso da ironia e em desenvolver monólogos do narrador direcionados para o leitor (No caso do filme, do narrador para o espectador).Esse recurso pode ser notado em diversas obras do autor, e se mostra eficaz pois aproxima os personagens do público, tornando o típico ranzinza presente em seus filmes (Como Boris no caso de Tudo Pode dar Certo) um pouco mais suportável para o expectador.

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