Tudo Que Quero (Crítica)

Ricardo Rocha

Em 1966, dois personagens improváveis se encontravam pela primeira vez na fronteira final, naquilo que chamamos de universo. Capitão Kirk (um humano um tanto fora da curva, mas corajoso em sua essência) e Spock (um alienígena de um planeta distante chamado Vulcano, cujo características peculiares se sobressaem mais que sua capacidade intelectual e racional) juntos enfrentam adversidades, sem jamais perder a amizade para ir onde jamais nenhum homem foi.

Essa sinopse não só resume um pouco de um tanto que é “Star Trek” uma das séries de ficção cientifica mais adoradas de todos os tempos, como serve de exemplo para o ótimo texto de Michael Golamco que também é autor da peça.

Wendy (Dakota Fanning) é uma jovem nerd, e com isso quero dizer que ela é uma “Trekkie” (fã de Star Trek) em meio a seu cotidiano milimetricamente inalterado, ela busca através dos episódios da série, estabelecer sua vida pouco explorada através de meditações existenciais. Até que certo dia, ela tem a chance de participar de um concurso de roteiro para um possível novo episódio de Star Trek. Está tudo lá, na cabeça dela, cada fala, cada cena. Tudo montado e remontado, centenas de vezes para que seu roteiro seja o mais incrível e perfeito episódio já escrito. Mas aí temos um pequeno problema, talvez não fosse tão pequeno em outras circunstâncias, se Wendy não sofresse de autismo, e se não estivesse condicionada a uma vida regrada numa casa para pessoas com necessidades especiais, se sua irmã mais velha Audrey (Alice Eve) não estivesse em meio a vários problemas financeiros e ainda uma culpa ou ressentimento por ter deixado sua irmã aos cuidados de Scottie (Toni Colletti) uma dedicada psicóloga que acompanha o dia a dia destas pessoas, quando mal consegue cuidar do seu filho.

Wendy a princípio tenta fazer com que seu roteiro seja levado para o concurso, mas o caminho simples, nem sempre é o mais fácil. É uma grande jornada, uma espécie de “Road Movie” muito simpático, mas terrivelmente triste, sem nunca passar a mão na cabeça de sua protagonista. Ela decide então, por meios próprios e desafiadores levar seu próprio roteiro até Los Angeles, e isso para ela é o mesmo que atravessar o espaço sideral e ir onde nenhum homem jamais foi.

Tudo Que Quero (Crítica)

Dakota Fanning que estava meio apagada nestes últimos anos, dando espaço para sua irmã mais nova Elle Fanning brilhar aos quatro ventos. Aqui volta a ser aquela menina peculiar, com olhos grandes, cabelos desgrenhados e roupas terrivelmente fofas e coloridas. O filme é dela, em todos os aspectos, e ela entrega de maneira muito competente e com menos gritos estéricos (lembra dela em “Guerra dos Mundos”?). Nós torcemos por ela, nos preocupamos quando ela atravessa a rua, quando se perde, quando passa por uma situação um pouco mais perigosa. Nos sentimos cada perda, ou vitória, que ela tenta com muita dificuldade sentir, ou melhor, expressar esses momentos que se internalizam dentro dela e se perdem como que num buraco negro. Quando seus olhos ameaçam lacrimejar, daí então percebemos que aquele foi o ponto mais alto de sua emoção, que conseguiu aterrissar na superfície incomum e distante daquele planeta incompreendido.

Já Alice Eve (que também esteve presente no filme “Star Trek: Além da Escuridão”) é o lado mais quebrado de um passado da qual tenta resgatar, mas que vê em sua filha, recém-nascida uma chave de conexão com a sua irmã. Ela é peça fundamental para o desenvolvimento de Wendy, que tenta de sua maneira voltar a ter um laço/ligação maior com sua irmã.

E, claro, um filme com Toni Colletti, a qual batizo de “A Mãe de Todos” pelo simples fato das melhores mães do cinema virem dessa atriz; a mãe de Cole em “O Sexto Sentido”(1999), a mãe da “Pequena Miss Sunshine”(2006), a mãe de Charlie (que também tem autismo) em “Sei Que Vou Te Amar”(2008) e a mãe de Ducan em “O Verão da Minha Vida”(2013). Neste filme ela não é a mãe de Wendy, mas seu papel fica bem próximo a isso, com todo carinho e dedicação que ela tem pela garota. Ainda que seja uma personagem simples, é dela um dos momentos mais legais e divertidos do filme quando numa conversa com seu filho mistura os universos de “Star Trek” e “Star Wars”. Aliás, Toni Colleti fez a voz de Mary, na animação “Mary & Max” (2009) que aborda de forma lúdica a Síndrome de Asperger que é também uma forma de autismo.

É fácil se envolver com a história e seus personagens que são tratados com um cuidado e capricho que chega a serem palpáveis. Enquanto que a direção de Bem Lewin, um senhor com mais de 70 anos que dirigiu o recomendado “As Sessões” (2012) filma tudo de forma simples e objetiva, sem grandes momentos imagéticos, ainda que tudo funcione de maneira correta. A trilha sonora de Heitor Pereira (sim, um dos poucos brasileiros que se deu bem em Hollywood) brinca muito com notas delicadas e etéreas, que por vezes nos transporta para algo mais existencialista, que se encaixa muito bem com o universo complexo da protagonista.

“Tudo Que Quero” uma tradução um tanto vaga, é um filme curto, que tem muito a dizer, mostra tudo que tem para mostrar de forma muito objetiva, as vezes mostra até demais, ou as vezes uma ou outra situação aparece de maneira fácil (como que um sinal divino, ou seria alienígena?) Mas de fato, uma história intensamente nerd, maravilhosamente triste e formidavelmente fofa. Mostrando que o universo seja ele qual for, merece ser explorado por qualquer pessoa que tenha um mínimo de coragem e senso racional para não desistir no meio do caminho.

Menção honrosa ao fiel companheiro de Wendy, seu cachorrinho com o uniforme da frota estelar de Star Trek.

Pôster de divulgação: Tudo Que Quero

Pôster de divulgação: Tudo Que Quero

SINOPSE

Wendy (Dakota Fanning), uma jovem mulher portadora de autismo, consegue driblar sua cuidadora e escapa com um único objetivo em mente: entregar seu manuscrito para concorrer em uma competição de escrita sobre Star Trek.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Ben Lewin” espaco=”br”]Ben Lewin[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Carlton Cuse, Ryan J. Condal, Adam Sztykiel
Título Original: Please Stand By
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 1h 33min
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 26 de abril de 2018 (Brasil)

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