UM HOMEM ENTRE GIGANTES (Crítica)

UM HOMEM ENTRE GIGANTES

4emeio

Por Juca Claudino

O Homem que Não Vendeu Sua Alma

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“Um Homem Entre Gigantes” utiliza da história de Bennet Omalu, o médico patologista responsável pela descoberta da Encefalopatia Traumática Crônica, para romantizá-la e com isso gerar um drama sobre “aquele que não vendeu sua alma”. Bom, com isso consegue um resultado satisfatório, muito bem contado e dirigido, bem-sucedido em conseguir desenvolver emoções de forma cativante (e pouco pedante), e isso muito graças à edição de William Goldenberg (“Argo”) e às acertadas atuações do elenco, principalmente com um ótimo, dramático e carismático Will Smith – que com isso consegue quebrar uma série de preconceitos e estereótipos sobre sua figura. Por mais que tenha alguns calcanhares de Aquiles no seu desenvolvimento narrativo, é um longa fluido, que pretende desenvolver todo esse heroísmo sobre a figura do médico nigeriano que enfrenta a gigante NFL (aqui vilãnizada), em um roteiro que muito mais revalida o “Sonho Americano” da terra da “justiça” e das “oportunidades” a partir da figura corajosa de Omalu do que tenta desconstruí-lo – como a sinopse deixa a entender.

Para começar, a figura de Omalu soa um tanto “ingênua”. Um alguém idealista (tão idealista que torna-se uma figura inclusive “tolinha”), cheio de sonhos, inocente, que chega aos Estados Unidos sob a crença de ser a terra onde “os sonhos são possíveis”, e por essa sua ingenuidade se perde (e pensando que Omalu é um imigrante, essa impressão não poderia ser ofensiva?). Porém, de um imenso talento e de muita habilidade – um gênio. Mas por que se perde? Ao descobrir a doença da Encefalopatia Traumática Crônica, percebe como os jogadores de futebol americano estão fortemente expostos a essa doença graças à dinâmica do jogo, e corre para avisar a NFL (Liga Nacional de Futebol, em português, a principal competição de futebol americano do mundo, adorada como símbolo nacional pelos estadunidenses), na crença de que, como estamos na terra das oportunidades, eles irão reconhecer o seu mérito na descoberta e se sentirão agradecidos por esse aviso – e o que fazem no final das contas é tentar derrubar e calar Omalu, sabendo de como isso impactaria negativamente a visão sobre o futebol americano, podendo gerar uma série de polêmicas e com isso ser uma ameaça comercial à Liga. Existem alguns paradoxos aí: o primeiro é o fato de “Um Homem Entre Gigantes”, assim como em “A Grande Aposta”, mesmo no contexto de produção e comercialização que se encaixa estar desconstruindo a crença nos grandes líderes do mercado e poderosos empreendedores, retratados menos pelo ponto de vista da meritocracia e mais como cegos pela ganância, desumanos e irresponsáveis; e o segundo (e mais complicado de entender o que quero dizer, então prometo me esforçar), que é o fato do filme desconstruir essa crença de Omalu sobre o “sonho americano” da “terra das oportunidades” para, exatamente com isso, gerar sobre a figura do médico um verdadeiro “herói americano” e revalidar essa moral. Okay, vamos lá: o segundo se justifica pois, por mais que veja a realidade cruel dos fatos, Omalu não perde o seu idealismo, e continua lutando contra os poderosos em busca de justiça, tornando assim o personagem de Will Smith romantizado, nos inspirando como um herói que não se vendeu. E essa acaba sendo a grande moral do filme, a revalidação da superioridade do “sonho americano” independentemente do que for.

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O drama é um entretenimento garantido. A direção de Peter Landesman (que também dirigiu o filme selecionado para o Festival de Veneza em 2013 “JFK – A História Nunca Contada”) é acertada, e faz do filme uma cativante trama, com algum suspense, que desenvolve muito bem as emoções que pretende nos transmitir. A edição de William Goldenberg, que levou o Oscar de Melhor Montagem em 2013 por Argo, merece ser destacada: ela garante uma fluidez que torna o filme interessante e instigante. Mas o grande destaque mesmo vai para a atuação do elenco, que além d@s ótim@s Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin e Albert Brooks, tem um Will Smith em boa forma, conseguindo criar um personagem carismático sobretudo. Ao acertar o tom em “Um Homem Entre Gigantes” (o título brasileiro, logo, faz referência ao confronto entre Omalu vs os poderosos da mídia e NFL), o ator de “Um Maluco no Pedaço” prova sua potência como ator ao fazer um papel que foge do estereótipo criado sobre sua imagem (aquele que faz referências aos seus personagens como “Hancock”, “Depois da Terra” e “Hitch – Conselheiro Amoroso”) nessa que provavelmente foi sua melhor atuação desde “À Procura da Felicidade” (filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2007).

“Um Homem Entre Gigantes” tem seus pontos pedantes, é verdade: o desenvolvimento do “alívio amoroso” entre Omalu e Prema Mutiso (Gugu Mbatha-Raw) não passa de algo ralo, superficialmente trabalhado e desinteressante. Porém, toda a trama de perseguição e suspense que prepondera sobre o desenvolvimento do longo é bem carismática e funcional, em uma linguagem pouco ousada e bem dirigida. Dr. Bennet Omalu, por Peter Landesman, é o típico “herói americano” no imaginário estadunidense (e o filme parece inclusive brincar com isso em algumas falas) em um longa muito interessante. Claro que não faça tanto sentido para nós essa gravidade toda em confrontar o poder da NFL (mas se por um momento durante a metade do longa pensarmos que o futebol americano representa uma paixão como a do futebol de campo aqui – e imaginemos algo como a CBF ou Globo representando o poder por detrás dessa paixão toda, assim como a NFL… o filme se torna bem mais dramático).

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SINOPSE

Will Smith estrela Um Homem Entre Gigantes, um thriller dramático baseado na incrível história real do Dr. Bennet Omalu, o brilhante neuropatologista forense que fez a primeira descoberta do TCE, um trauma cerebral relacionado a esportes, em um jogador profissional de futebol americano e lutou para que a verdade fosse conhecida. A emocionante jornada de Omalu o coloca em um perigoso conflito com uma das mais importantes – e queridas – instituições do mundo.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Peter Landesman
Título Original: Concussion
Gênero: Drama
Duração: 2h 3min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 3 de março de 2016 (Brasil)

TRAILER

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