UMA JUÍZA SEM JUÍZO (Crítica)

UMA JUIZA SEM JUIZO

4emeio

Por Davi Gonçalves

UMA JUIZA SEM JUIZO01

Já nas primeiras cenas de Uma Juíza Sem Juízo, somos capazes de descobrir muito a respeito de sua protagonista. Ariane Feldier é uma juíza comprometida e extremamente rígida em seus julgamentos, com grandes perspectivas de crescimento no tribunal onde atua. Alem disso, aos 40 anos de idade, ela é solteira, não tem filhos, trabalha muito, se diverte pouco, não acha prazer em quase nada, inclusive nos homens – que troca facilmente por uma dança. Não que haja uma questão de ausência de libido aí, mas talvez sua experiência traumática com a principal figura masculina em sua vida (o pai que abandonou a esposa quando Ariane era pequena – e a seguida morte da mãe, que fez com que a garota ficasse sozinha no mundo) tenha lhe trazido certa desconfiança com relação ao sexo oposto.

Na noite de ano novo, em meio a uma animada festa em seu local de trabalho, Ariane (sempre inatingível em sua postura séria) bebe uns goles a mais e não se recorda de nada do que aconteceu naquela ocasião. Alguns meses depois, ela recebe a notícia de que está grávida, mas não faz ideia de como isso pode ter acontecido – e, principalmente, de quem é o filho. A partir daí, Ariane começa uma investigação para descobrir os detalhes da história – e, para sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai do filho que espera é um perigoso agressor.

Uma Juíza Sem Juízo é um filme despretensioso, mas que agradou ao público e crítica em geral – tanto que a comédia ganhou o Prêmio Cesar de melhor roteiro (segundo maior festival francês) e foi um sucesso de bilheteria na França. Não tem grandes ambições e seu apelo absurdo consegue arrancar boas risadas da plateia. Porém, o tom exagerado desta comédia não a torna apelativa. Na verdade, por mais que escolha alguns tipos absurdos e estereotipados, o roteiro veloz (que não deixa o espectador bocejar na poltrona) aliado à trama envolvente e inventiva é o que mais chama a atenção neste filme onde tudo é bastante previsível (mas nem por isso você perde o interesse na trama). A comédia absurda de Uma Juíza sem Juízo, por vezes até mesmo boba, lembra muito os primeiros trabalhos de Woody Allen (obviamente sem toda aquela firula existencial do cineasta).

UMA JUIZA SEM JUIZO03

Mas a comédia também pode render bons frutos, e Uma Juíza Sem Juízo aborda alguns temas contemporâneos que podem render boas discussões. O primeiro, estampado logo nas cenas iniciais, é a visão moderna da mulher na nossa sociedade – independente, workaholic e que não depende de homem para nada. Depois, a desestruturação da família nos dias atuais é algo frequente. Ambos os protagonistas são frutos de lares problemáticos – e a ideia da formação de uma nova e perfeita “família” (segundo o conceito clássico) é o que mais assusta Ariane. Finalmente, há também uma questão ética aqui: vale a pena assumir um segredo vergonhoso para salvar outra pessoa? Como proceder diante desta questão, tomando ciência da situação vexatória à qual estaremos fatalmente expostos?

Outro ponto que deve ser elogiado é a ótima interação entre os protagonistas. Sandrine Kiberlian e Albert Dupontel (este último que assina o roteiro e a direção do longa) estão ótimos em seus respectivos papéis e mesmo individuais tem atuações excelentes. Sandrine consegue lidar bem com as alterações de humor de sua personagem – o que lhe rendeu o Cesar de melhor atriz – , enquanto Albert vive um tipo alucinado que é engraçadíssimo. Da parte técnica, vale ainda destacar a simpática (e divertida) trilha sonora de Christophe Julien (que acentua todo o tom escrachado da comédia) e a fotografia e edição do filme.

Em alguns momentos, é bom dar uma pausa em filmes “sérios” e arriscar produções menos badaladas e que exijam um pouco menos de nós como espectadores. Isto não implica em assistir a filmes ruins, mas sim trabalhos menos pretensiosos que podem nos render bons momentos de distração e entretenimento. Uma Juíza sem Juízo não é uma verdadeira pérola cinematográfica, mas funciona bem como comédia, sem forçar a barra. Uma opção divertida para quem gosta de dar umas escapulidas uma vez ou outra das comédias hollywoodianas recheadas de estereótipos, apelações e preconceitos – e ainda assim vazias em sua essência.

UMA JUIZA SEM JUIZO02

SINOPSE

A juíza Ariane Feldier (Sandrine Kiberlain) é conhecida por ser extremamente rígida em seus julgamentos e desprezar relacionamentos amorosos. Um dia ela descobre que está grávida, mas não tem a menor ideia de como isso pode ter acontecido. Ariane passa a comandar a sua própria investigação para descobrir a origem desta história e, para a sua surpresa, o teste de DNA indica que o pai da criança é um perigoso agressor…

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Albert Dupontel” espaco=”br”]Albert Dupontel[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Albert Dupontel e Héctor Cabello Reyes
Título Original: 9 mois ferme
Gênero: Comedia
Duração: 1h 22min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

Comente pelo Facebook