UMA LOUCURA DE MULHER (Crítica)

Juca Claudino

Há sempre um pouco de razão na loucura.

Sim, era bem previsível que surgiriam comédias decididas a explorar o cenário político brasileiro. Lava-jato, impeachment, golpe parlamentar-jurídico-midiático, vazamentos de ligações telefônicas, crise econômica, preço do dólar. E esse ano tivemos “Mulheres no Poder”, filme de Gustavo Acioli, além do novo projeto de Marcus Ligocki, “Uma Loucura de Mulher”. E já que esse texto é sobre o segundo longa citado, devemos adiantar que este não é uma comédia pronta a debater profunda e seriamente o momento político brasileiro, ou então discussões como a intervenção do capital privado na política e a absurda representatividade às avessas que temos no parlamento (um congresso majoritariamente homem e branco com uma população majoritariamente mulher e afrodescendente, para não falar do ministério em exercício). O que “Uma Loucura de Mulher” acaba fazendo é usar do “senso comum” sobre política (“político não trabalha” ou “político é tudo bandido”) para, com isso, criar situações bizarras o suficiente para rirmos.

Quer dizer, o que faz um rir não fará o outro rir necessariamente, é claro – as pessoas são diferentes, se você ainda não percebeu isso. Logo, é difícil decretar se “Uma Loucura de Mulher” é funcionalmente engraçado. Fato é que o longa opta por uma construção hiper ingênua e abusa da chanchada para fazer um humor, até certo ponto, infantil. Se propõe, na maioria das cenas, a exibir parvoíces gratuitas para gargalharmos do ridículo e, em outras, por composições bem estereotipadas das emoções dos personagens (superficiais e planos, por assim dizer) para novamente rirmos do ridículo. Em suma, “Uma Loucura de Mulher” nos quer fazer rir do ridículo. E se você está pensando “nossa, que previsível isso”, eu sei que é. E talvez por isso seja o filme em questão algo que alguns críticos nos bastidores das cabines de imprensa chamam de “filme que não tem o que escrever”: ele recita os clichês e as fórmulas folhetinescas de seu gênero, de forma a agregar pouco. É claro que isso não torna “Uma Loucura de Mulher” um filme “inferior” ou “superior” (aliás, como falar que uma peça de arte é “superior” ou “inferior” a outra? Essa hierarquização da arte é saudável? Me questiono isso toda vez que preciso colocar de 1 a 5 estrelinhas), já que a proposta dele é exatamente essa.

O começo de “Uma Loucura de Mulher” parecia ser instigante. Ao mostrar a protagonista Lúcia (Mariana Ximenes) sendo assediada sexualmente por um político muito influente da mesma sigla de seu esposo (que está prestes a se candidatar a governador e, portanto, precisa do apoio dos principais políticos de seu partido), Gero (o esposo de Lúcia), em resposta, tenta defender o agressor nessa situação toda por uma questão de “governabilidade” (ah, sempre ela…). Poderíamos aqui dizer que o longa propõe uma reflexão sobre o machismo que se perpetua dentro das principais instituições públicas (para não dizer em praticamente toda a sociedade) – evidenciado, por exemplo, na polêmica envolvendo a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que denunciou uma agressão física que sofreu dentro do congresso nacional em meio a um bate-boca (embora o fato do congresso nacional ser apenas 9,9% composto por mulheres já prove isso por si só, sem falar do ministério em exercício) – ou então uma denúncia da cultura do estupro que persiste em nossa sociedade. Porém, isso ocorre apenas nos primeiros 15 minutos de filme, que logo após a fuga de Lúcia de Brasília para o Rio (bem como a sinopse explica, e melhor do que eu) é dividido em dois núcleos: o protagonista, que narra a vida e as questões que perseguirão a personagem de Mariana Ximenes na cidade maravilhosa, e o secundário que narra as peripécias de seu esposo tentando limpar a barra para que sua candidatura não seja arruinada por “polêmicas midiáticas”.

No primeiro, embora tenhamos Mariana Ximenes entusiasmada em alcançar uma Lúcia cativante (e de fato sua atuação é encantadora), a trama toda se baseia em formatar uma personagem que subitamente reencontra sua identidade (clichê, eu sei) ao mesmo tempo em que, coincidentemente, redescobre o amor platônico de sua vida (aka Raposo, conhecido nacionalmente como “cirurgião das estrelas”, com direito inclusive a ensaio fotográfico para uma revista de “famosos e celebridades”). No segundo, a construção de Gero como o vilão da história (e aqui entra toda a questão do “político não trabalha/político é tudo bandido” que havia citado no 1° parágrafo), um alguém individualista e egocêntrico ao mesmo tempo que paspalhão e pateta. No meio disso tudo, uma série de estereótipos vulgares ao retratar a periferia carioca – e usando das palavras da crítica do Ccine10 Elisabete Alexandre, “não é mais legal abusar de estereótipos para compor piadas que ninguém mais acha graça”) e situações escrachadas dignas de um filme dos “Trapalhões”.

E se o filme no começa instigava com fatores que poderiam significar denúncias sociais importantíssimas, no final (pode-se dizer) acaba sendo um roteiro machista em diversos pontos, não só na representação da figura feminina como dependente de uma figura masculina “ao seu lado”, mas também pelo fato de, se “Uma Loucura de Mulher” passa no Teste de Bechdel, passa por pouco – o que é absurdo, já que seus diálogos são majoritariamente entre mulheres.

O diretor Marcus Ligocki estreia em uma direção de longa-metragem com “Uma Loucura de Mulher” (e caso eu esteja errado, que fique bem claro: a culpa é da IMDb). Produziu alguns filmes que já lhe garantem bom currículo, como “O Último Cine Drive In” e “Rock Brasilia – Era de Ouro”. Aqui, nessa comédia, aparenta não querer impor uma personalidade, e assim explora pouco os elementos do filme, recorrendo para uma linguagem padronizada e pouco provocativa ou instigante, que desvia a atenção para a encenação do elenco. Elenco este o qual, dentro dos limites dos estereótipos que carregam, consegue elencar certo carisma para a história.

UMA LOUCURA DE MULHER

SINOPSE

Lúcia (Mariana Ximenes) é casada com Gero (Bruno Garcia), político que está deslumbrado com a possibilidade de se tornar governador. Lúcia está disposta a apoiá-lo, mas um vacilo dele a faz fugir para o Rio de Janeiro. Lá, ela redescobre a alegria de estar solteira e de perseguir os próprios sonhos. Gero precisa dela para se eleger e Lúcia tem que se livrar dele para ser feliz.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Angelica Lopes, Kirsten Carthew e Marcus Ligocki Júnior
Título Original: Uma Loucura de Mulher
Gênero: Romance, Comedia
Duração: 1h 40min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 2 de junho de 2016 (Brasil)

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