Utøya – 22 De Julho (Crítica)

Magah Machado

Os atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega deixaram uma ferida aberta que se tenta cicatrizar das mais diversas maneiras desde então. Uma delas é encampada pelo cinema por meio de Utoya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega (U – July 22, 2018), de Erik Poppe, que o faz para denunciar a grande visibilidade que as ideias extremistas dos supremacistas da extrema-direita têm alcançado pelo mundo inteiro.

Ao re-encenar o massacre ocorrido na ilha que dizimou a vida de 69 adolescentes, Poppe escolheu um ponto de vista bastante polêmico: uma imersão no desespero de uma adolescente buscando salvar se a todo custo. Dos 93 minutos do longa, 72 deles são focados no tiroteio, em tempo igual à tragédia real. Detratores do filme o acusaram de violência gratuita e desrespeitosa às vítimas. Os que gostaram da película afirmam que ela se sustenta tecnicamente e o olhar é duro, porém, necessário. Não há porque escondê-lo.

Em praticamente um único plano sequência, o diretor acompanha Kaja (Andrea Berntzen, em ótima atuação) tentando se manter indene e, ao mesmo tempo, localizar a irmã Emilie (Eli Rhiannon Muller Osborne) em meio ao caos mortífero que um sniper traz ao acampamento dos jovens partidários do Partido dos Trabalhadores da Noruega. O sniper, que representa o ultra-direitista Anders Behring Breivik, autor do massacre, não passa de uma sombra sobre a colina, em clara significação que o importante é salvar vidas.

A Kaja de Andrea Berntzen se apoia em um arquétipo de líder nata, um cliché imposto pelo cinema à qualquer sobrevivente de tragédias deste calibre. Mas, consegue engrandecer sua personagem com boa expressividade física, já que esta qualidade do elenco acaba compensando o texto menor.

Utøya - 22 De Julho (Crítica)

Como na maioria dos tiroteios em massa, as vítimas não sabem nada uma das outras, nem mesmo porque estão vivendo o mesmo destino. Tudo que têm em comum é o terror e a vã esperança de escaparem daquele pesadelo. Uma experiência exatamente como aconteceu nos seus 72 minutos, e que ficará gravada profundamente em suas retinas, e nas dos espectadores, que lhes emprestam os olhos e corações dilacerados em aflição.

Fica claro que Poppe elege este foco específico para fazer um filme-alerta. Por isso, não há espaço para o desenvolvimento dos personagens. Vamos saber apenas o essencial para sobreviver a uma situação como esta: instinto de sobrevivência, em vez de trauma. Pró-atividade no acolhimento a toda vítima, mesmo que com poucas chances de sobrevivência. Desprendimento da dor e da alienação. Kaja demonstra bem estas características e conduz uma narrativa bastante crível, mesmo que totalmente baseada apenas em seu sofrimento.

Uma aposta de narrativa única tão arriscada quando tudo o mais despertaria o interesse do espectador só foi bem-sucedida por que amparada por uma execução técnica primorosa, especialmente na edição do som. São, definitivamente, os tiros, em sua intercorrência de precisão, velocidade e potência que amplificam o pavor e entregam uma experiência sensorial inesquecível, quase incorporando-se como personagens coadjuvantes. Gisle Tveito é o responsável por esta proeza.

Quando lançado no Festival de Berlim em fevereiro deste ano, U-July 22, levantou dúvidas se este chocante recorte do massacre seria realmente necessário ou apenas uma imagética primária de voyerismo. Mesmo sublinhando seu ponto de vista, ou sua “verdade”, como assina no longa, Poppe reitera que há outras verdades. E reitera o alerta que já sabemos: a extrema direita se espalha perigosamente pelo mundo em ideias, facções e atos justamente como este praticado em Utoya.

Frente a tão grave cenário que vemos em vários países, inclusive no Brasil, seria algo irresponsável deixar a conclusão apenas ao espectador: ele pode percebê-la tarde demais.

Pôster de divulgação: Utøya - 22 De Julho

Pôster de divulgação: Utøya – 22 De Julho

SINOPSE

No pior dia da história norueguesa moderna, Kaja (Andrea Berntzen) se diverte com sua irmã mais nova Emilie (Elli Rhiannon Müller Osbourne), 12 minutos antes da primeira bomba chegar ao acampamento de verão na ilha Utøya. Foi o segundo ataque terrorista de Anders Behring Breivik, em menos de duas horas, e matou 69 pessoas. Kaja representa o pânico, medo e desespero dos 500 jovens enquanto busca sua irmã na floresta.

DIREÇÃO

Erik Poppe Erik Poppe

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Anna Bache-Wiig, Siv Rajendram Eliassen
Título Original: Utøya 22. Juli
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 1h 33min
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 29 de novembro de 2018 (Brasil)

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