VAZANTE (Crítica)

Kadu Silva

Um romance shakespeariano fora do timing

Daniela Thomas (Linha de Passe) em sua primeira condução num filme sozinha resolveu narrar um drama romântico histórico no período escravocrata no Brasil do século XIX, até aí tudo certo, no entanto o filme acabou se tornando uma obra vista por muitos como equivocada e fora do tom, tudo porque em sua primeira exibição no Brasil, os negros presentes na sessão não gostaram de ver um filme sobre escravidão dar protagonismo para brancos e deixar os negros como coadjuvante da narrativa.

A história acontece em Minhas Gerais no ano 1821 em uma fazenda onde negros nativos, brancos e recém-chegados da África convivem juntos com todos os conflitos de incomunicabilidade e as tensões raciais e de gênero que o país continha. Nesse cenário explosivo, o fazendeiro Antônio (Adriano Carvalho), após perder sua mulher num parto malsucedido, resolve tentar nova vida se casando com uma menina de 12 anos, no entanto as coisas não acontecem como ele imaginava.

O roteiro de Daniela e do estreante Beto Amaral, é completamente naturalista ao retratar uma época pouco mostrada de nosso país, a relação de dominação branca sobre os negros, o machismo, o abuso sexual, e toda estrutura social desigual é vista em detalhes num filme quase sem diálogos, narrado através da contemplação de momentos.

VAZANTE (Crítica)

A montagem do filme é feita através de cortes bruscos, e a fluidez da narrativa não acontece da forma “convencional” que estamos acostumados, Daniela quer sempre trazer o lado natural do momento, tanto que o filme foi todo filmado numa fazenda que foi movida por escravos na época retratada, muitos dos figurantes são descentes de escravos que viveram no local, até a luz é toda natural, a pouca iluminação foi através de velas e lampião, ou seja, o filme é uma alegoria técnica primorosa, a fotografia é deslumbrante, que ressalta a história dramática ao extremo.

Se fosse realizado em outro momento, talvez, Vazante fosse um filme de grande apelo, já que em seu arco dramático apresenta uma história com ares shakespeariano extremamente popular, mas diante de um momento histórico que as minorias estão buscando igualdade, o filme soa errado, afinal retratar um drama de um homem branco, usando os negros como “objetos” estético, tornou o filme pouco representativo.

Não só isso, a trama ainda que tenha uma narrativa toda própria e representa muito bem a origem da sociedade atual do Brasil, apresenta um conto muito simples e comum, nada no filme é fruto de um frescor criativo ou visual, o enredo central é mais do mesmo.

Ou seja, Vazante não é somente regular pela falta de representatividade racial, ele também não apresenta nada de especial em sua trama.

Pôster de divulgação: VAZANTE

Pôster de divulgação: VAZANTE

SINOPSE

Início do século dezenove. Em uma fazenda imponente e decadente, situada na região dos diamantes em Minas Gerais, brancos, negros nativos e recém-chegados da África sofrem com os conflitos e a incomunicabilidade gerada pela solidão e pelas tensões raciais e de gênero em um país que passa por um forte período de mudança.

DIREÇÃO

  • Daniela Thomas Daniela Thomas

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Daniela Thomas, Beto Amaral
    Título Original: Vazante
    Gênero: Drama
    Duração: 1h 40min
    Classificação etária: 14 Anos
    Lançamento: 9 de novembro de 2017 (Brasil)

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