Vidas à Deriva (Crítica)

Pedro Vieira

Histórias reais sempre foram inspirações para diretores e roteiristas, que não perdem a chance de chamar a atenção do público com seus filmes “baseados em fatos”. Quanto mais trágica a história, mais fácil fisgar quem assiste com um melodrama (e isso pode ter seus lados positivos e negativos). Só que “Vidas à Deriva” (Adrift) não é apenas um grande melodrama: é um filme que falha em construir um ritmo conciso em sua narrativa, fazendo com seus acertos sejam apagados por problemas que poderiam ser evitados se o filme não fosse tão ambicioso.

Dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur como uma adaptação do livro de Tami Oldham, o longa narra a romântica e trágica história de Tami (Shailene Woodley) e seu noivo, Richard Sharp (Sam Caflin), que enquanto velejavam no Pacifico, são atingidos por uma tempestade. Após o ocorrido, Richard acaba ficando imobilizado da cintura para baixo e Tami precisa fazer de tudo para manter os dois vivos.

Ainda que usando artifícios óbvios, Kormákur consegue desenvolver sequências eficientes que refletem sobre o drama vivido pelos seus personagens, ao mesmo que expõem somente aquilo que o diretor quer que o espectador veja, sendo o caso da cena inicial, em que vemos Tami sozinha rodeada por um oceano que vai até o horizonte. Sentimos sua solidão, ao mesmo tempo em que uma parte daquele cenário se encontra escondido de nossos olhos, pois nas cenas seguintes descobriremos que um barco salva-vidas está perdido não muito ao longe.

A fotografia do experiente (e sempre ótimo) Robert Richardson auxilia a direção no momento de criar cenas dentro e fora d’água capazes de realçar detalhes importantes para a trama (como objetos simples do barco que posteriormente serão importantes para Tami) e as cores que compõe o longa, como o azul hostil e o vermelho que representa o amor do casal protagonista.

Vidas à Deriva (Crítica)

Chega a ser uma pena que esses elementos técnicos fascinantes se percam em meio a uma montagem confusa. Tentando equilibrar as sequências mais pesadas da tragédia com o romance leve, Kormákur opta por realizar digressões no tempo, indo e voltando na história de vida do casal. Dessa forma, ele corta a tensão de certas cenas, como quando Tami luta com uma vela jogada ao mar, com os momentos românticos e açucarados em que ela e Richard refletem sobre o amor que um sente pelo outro. Esse desejo de tentar unir esses dois elementos da história quase ao mesmo tempo na busca de um equilíbrio é fatal para o longa, que cria um quebra-cabeça esquizofrênico com cenas desarmônicas que acabam ligadas uma as outras apenas pela vontade do diretor.

O roteiro também não ajuda, pois além de não haver sinal de que alguma tentativa é feita para encaixar essas sequências desconexas, ele também não consegue criar uma relação realmente interessante em torno do afeto de Tami e Richard – e todo o início do namoro dos dois tem uma naturalidade de desenvolvimento similar à naturalidade de um peixe nadando na areia do deserto. Se há algum momento em que o roteiro consegue tirar do espectador algum tipo de reação, isto ocorre somente ao final do filme, com uma pequena reviravolta na trama.

Devido a isso, a responsável por de fato conseguir segurar o filme e fazer com que a história se torne minimamente interessante é Woodley. A atriz cria uma Tami cheia de vida, que hora é capaz de abraçar a alegria de ter o namoro ao seu lado, hora é capaz de expressar todo o seu remorso e medo pelo modo como profere seus diálogos simples. Woodley acaba se tornando uma pérola no meio de um oceano confuso e tempestuoso, e com seu brilho acaba ofuscando seu companheiro no filme, Caiflin, cujo o Richard sem carisma parece uma mistura de seu sedutor e aventureiro Finnick de “Em Chamas” com o trágico Will de “Como Eu era Antes de Você”. De forma curiosa, Caiflin não consegue conduzir Richard com a mesma intensidade vista em seus papéis nas outras produções citadas.

Se tornando sua própria tempestade graças às escolhas técnicas e de roteiro dispensáveis, “Vidas à Deriva” é um filme que serve para expor o exímio talento de Shailene Woodley como atriz, mas que por uma infelicidade, não consegue dar o suporte necessário a ela para que este seja um filme memorável em sua carreira.

Pôster de divulgação: Vidas à Deriva

Pôster de divulgação: Vidas à Deriva

SINOPSE

Apaixonados, os noivos Tami Oldham (Shailene Woodley) e Richard Sharp (Sam Claflin) velejam em mar aberto quando são atingidos por uma terrível tempestade. Passada a tormenta, ela se vê sozinha na embarcação em ruínas e tenta encontrar uma maneira de salvar a própria vida e a do parceiro debilitado.

DIREÇÃO

Baltasar Kormákur Baltasar Kormákur

FICHA TÉCNICA

Roteiro: David Branson Smith
Título Original: Adrift
Gênero: Drama, Romance, Aventura
Duração: 1h 38min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 9 de agosto de 2018 (Brasil)

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