VINGANÇA (Crítica)

Davi Gonçalves

Sim, o título entrega o filme: Vingança é uma soberba obra sobre… vingança. O longa de estreia de Coralie Fargeat mantém a velha estrutura já conhecida do rape and revenge (literalmente “estupro e vingança”), um subgênero do exploitation muito comum na década de 70. Neste thriller francês, somos apresentados a Jen (Matilda Lutz), a típica figura que habita o imaginário de todo homem heterossexual: uma espécie de Lolita, jovem, atraente, desfilando em roupas provocantes (enquanto chupa um pirulito) e fazendo pose. Ela mantem uma relação com Richard, um empresário casado que a leva para uma casa em meio à paisagem inóspita do deserto marroquino, onde o bonitão se reúne todo ano para uma espécie de caçada com os amigos. A situação se complica com a chegada antecipada de Dimitri e Stanley, os dois sócios de Richard, que já de cara se sentem atraídos pela garota. Após ser estuprada, Jen é assassinada pelo próprio amante e seus comparsas – bom, ao menos é o que eles acreditam. Jen sobrevive à tentativa de homicídio e parte em uma busca frenética para se vingar do trio.

VINGANÇA (Crítica)

Apesar do roteiro extenso (em especial na condução da odisseia da mocinha rumo ao seu propósito sangrento), Vingança chama a atenção por sua boa cinematografia, em especial pela fotografia munida de cores vibrantes e uma trilha sonora que contribui muito à narrativa (composta por músicas pop e alguns trechos com sintetizadores, que dão à fita uma cara de produção setentista, mas num toque muito mais moderno). É interessante notar ainda a evolução de nossa protagonista: seu instinto de vingança a torna uma verdadeira máquina de matar, impiedosa, fria calculista. Importante, no entanto, destacar alguns pontos que acompanham esta trajetória, principalmente a mise-en-scène de Fargeat, que não poupa na violência, mas de forma muita estilizada e visceral. Há muito sangue, mas nada é completamente gratuito – lembrando em alguns momentos o cinema tarantinesco (a perseguição final, por exemplo, é fantástica). Ainda é importante destacar os belíssimos trabalhos de maquiagem, design de produção e figurino – este último ajuda a caracterizar de forma precisa o progresso de nossa personagem.

Em tempos turbulentos, Vingança mostra a misoginia em seu pior ângulo. Mulheres ainda são tratadas como mero objeto do desejo masculino. Apesar da hipersexualização da personagem, Jen é o melhor exemplo de “olhe, mas não toque” (bom, ou quem sabe esta hipersexualização ocorra justamente para levantar este debate). Ela sofre com a negligência dos homens à sua volta e diálogos como “você é tão bonita que ele não resistiu” ou “ainda ontem você estava dançando agarrada a mim” reforçam a maneira como a mulher ainda é subjugada por uma cultura excessivamente machista. Talvez Vingança queira levantar este debate – ou talvez só queira mesmo trazer uma história (batida, sim, porém bem executada) sobre vingança. Seja lá qual for o objetivo da cineasta, Vingança é um filme ousado que merece ser conferido – afinal, sempre é bacana ver macho escroto sendo humilhado, não é não?

Pôster de divulgação: Vingança

Pôster de divulgação: Vingança

SINOPSE

Três homens casados e ricos fazem anualmente uma espécie de caçada no deserto. Desta vez, um dos empresários decide trazer sua amante (Matilda Lutz). Quando ela é abandonada para morrer devido a uma série de acontecimentos, eles terão que lidar consequências de uma mulher que busca vingança.

DIREÇÃO

Coralie Fargeat Coralie Fargeat

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Coralie Fargeat
Título Original: Revenge
Gênero: Suspense, Ação
Duração: 1h 48min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 31 de maio de 2018 (Brasil)

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