VISÕES DO PASSADO (Crítica)

Juca Claudino

Adrien Brody também vê pessoas mortas

“Visões do Passado” é um filme que tem seus méritos. A maneira como trabalha o mistério consegue guiar momentos de tensão instigantes, o que constrói uma narrativa interessante, com uma premissa formidável: um grupo de pessoas já mortas, todos com uma série de semelhanças curiosas entre si, saem do mundo dos mortos pois precisam mostrar algo a um psicanalista. É um filme de mistério, de terror psicológico, que não pretende ser uma obra muito memorável ou relevante para a produção cinematográfico dentro de nosso contexto: não demonstra um potencial de impacto para as plateias e não agrega em nada o cinema de seu gênero. O que faz é gerar expectativas sobre o destino da trama e saber usá-las decentemente. Com uma fotografia sombria, o filme flerta entre um tom retrô e elementos típicos de películas de terror blockbuster atuais (CGIs que inclusive destoam do porte pequeno do longa). Todavia, o grande destaque fica mesmo com Adrien Brody, que consegue nos cativar de forma funcional.

O filme dirigido por Michael Petroni, roteirista de filmes como “A Menina Que Roubava Livros” e “O Ritual”, demora para engatar no suspense. Desde o começo, o filme é denso, sombrio. Mas somente quando a personagem Elizabeth Valentine (interpretada sinistramente por Chloe Bayliss) entra na sala do psicanalista Peter Bower (Adrien Brody, o qual já vou falar logo logo) é que as coisas esquentam. Bom, fato é que a atmosfera do filme é bem trabalhada e, quando entramos na trama em si, o roteiro aparente tem uma fórmula: quando achamos que os mistérios dos filmes estão prestes a serem solucionados, voilà, temos reviravoltas que redirecionam nossas investigações. Como um filme de suspense, essa sobreposição de mistérios se torna um dos pontos mais prazerosos do longa, uma vez que recorrentemente retomam uma expectativa que, mesmo não sendo aproveitada de forma a gerar momentos verdadeira e notavelmente catárticos, não são desperdiçadas pela direção. Porém, aos fãs do gênero favorito de Hitchcock, calma lá, pois o filme não demonstra ter um destaque a mais daquilo que nós conseguimos prever e supor, fazendo de “Visões do Passado” um longa que entretém, porém não se propõe a surpreender as expectativas do público.

Outro ponto alto do longa é a atuação de Brody. O ator, que desde sua performance oscarizada em “O Pianista” sofre de um inexplicável sumiço em papéis protagonistas relevantes (não ultrapassou os seus personagens coadjuvantes como em “O Grande Hotel Budapeste” ou seu Dali em “Meia-Noite em Paris”, além de personagens em filmes cujo o tempo não selecionou para a eternidade até agora), aqui é parte responsável de qualquer tensão que você, expectador, sofra no filme. Seu personagem é cativante e emocionalmente frágil (principalmente pelo fato de ter perdido sua filha de 6 anos em um acidente de carro), e logo vê-lo ter de enfrentar inúmeros obstáculos aterrorizantes é algo bem melancólico. O filme em si tem um tom retrô, com cenários um tanto teatrais, porém o CGI (sigla em inglês para “imagem gerada em computador”) está lá, presente no filme, gerando personagens monstruosos e algumas poucas cenas que de tão pretensiosas acabam destoando do porte pequeno do filme. A atmosfera é interessantíssima, algo graças a fotografia gótica de Stefan Duscio.

Um longa singelo, sem muitas aspirações, que é funcional dentro da proposta do seu gênero. Se você tiver essa consciência quando (supostamente) comprar o ingresso para “Visões do Passado” certamente terá uma experiência muito mais prazerosa assistindo a esse filme. Sombrio e instigante, ainda traz um Adrien Brody que, diferentemente do que você pensava, ainda está em boa forma.

VISOES DO PASSADO

SINOPSE

O psicólogo Peter Bower e sua esposa decidem retornar a Melbourne, na Austrália, lugar onde se conheceram, para tentar começar uma vida nova e deixar o evento traumático que marcou suas vidas para sempre no passado: a morte de sua filha de 12 anos em um trágico acidente. Uma vez instalados na cidade, Bower recebe a ajuda do Dr. Duncan, que realiza uma triagem de pacientes e os encaminha para o consultório do psicólogo como uma forma de Bower retornar ao trabalho mais facilmente. Quando tudo parecia se acertar, quando a vida parecia voltar aos trilhos, Bower descobre um terrível elo entre alguns de seus pacientes que o obriga a retornar a sua cidade natal e a confrontar um dilema que só ele pode solucionar.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Michael Petroni” espaco=”br”]Michael Petroni[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Michael Petroni
Título Original: Backtrack
Gênero: Suspense
Duração: 1h 30min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 31 de março de 2016 (Brasil)

Comente pelo Facebook