X-MEN – O CONFRONTO FINAL (Crítica)

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FICHA TÉCNICA

Título Original: X-Men: The Last Stand
Ano do lançamento: 2006
Produção: EUA
Gênero: Fantasia, Ficção científica, Ação
Direção: Brett Ratner
Roteiro: Simon Kinberg, Zak Penn

Sinopse: É descoberta uma cura para os mutantes, que agora podem optar por manter seus poderes ou se tornarem seres humanos normais. A descoberta põe em campos opostos Magneto (Ian McKellen), que acredita que esta cura se tornará uma arma contra os mutantes, e os X-Men, liderados pelo professor Charles Xavier (Patrick Stewart).

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É descoberta uma cura para os mutantes, que agora podem optar por manter seus poderes ou se tornarem seres humanos normais. A descoberta põe em campos opostos Magneto (Ian McKellen), que acredita que esta cura se tornará uma arma contra os mutantes, e os X-Men, liderados pelo professor Charles Xavier (Patrick Stewart).

Inicialmente, o diretor Bryan Singer seria o responsável pela direção de Xmen O confronto final, fechando a trilogia que ele mesmo tinha iniciado e, com competência, tinha realizado o segundo e melhor filme da série. Eram os anos de 2005/2006 e Singer acabou por pular fora do projeto para dirigir o caríssimo, criticado e fracassado Superman O retorno. O estúdio responsável pelos direitos da franquia, a 20th Century Fox, tinha agendado o lançamento do fechamento da mesma para meados de 2006, seguindo uma tabela de lançamentos de filmes dos mutantes a cada três anos (Xmen, 2000; Xmen 2, de 2003 e mais tarde, Xmen Origens Wolverine, de 2009).

Com Singer fora do projeto, o diretor Matthew Vaughan (que mais tarde dirigiria Xmen Primeira Classe) foi cotado para a direção, mas abandonou o projeto apenas nove semanas antes do início das filmagens, alegando não poder ficar longe da família pelo tanto de tempo que uma produção assim requeria. Na dança das cadeiras, o diretor Brett Ratner foi chamado às pressas e topou o desafio de preparar o filme em tempo recorde: 10 meses de produção, incluindo filmagens, ao lançamento.

Nesse meio tempo, muito se falou sobre os personagens e o roteiro do filme. Havia rumores de que personagens conhecidos dos quadrinhos como Gambit apareceriam no filme. No fim das contas, parece haver uma máxima em caras produções Hollywoodianas que diz que filmes com variados problemas de produção acabam sofrendo seus efeitos posteriormente, no saldo final. O confronto final parece sofrer desse mal.

Não é necessário culpar Brett Ratner pelo saldo irregular da produção feita às carreiras, porque a culpa não é toda dele. Brett, caindo de paraquedas na missão, não é o melhor dos diretores que já existiram na face da Terra, mas é competente ao criar cenas de ação bem elaboradas, como sua carreira mesmo nos mostra — é dele os filmes de pancadaria de Jack Chan, a trilogia A hora do Rush e Dragão Vermelho, da trilogia do personagem Hannibal Lecter, de O silêncio dos Inocentes.

É em virtude de sua habilidade com cenas de ação que há, no filme, pelo menos três sequências bem elaboradas: a sequência da sala de perigo, que aparece pela primeira vez para deleite dos fãs da série; a cena da casa da personagem Jean Grey, em que, enquanto um grupo de mutantes se espanca por dentro dela, Jean Grey e Charles Xavier se digladiam num confronto mental que vai resultar na consumição total do corpo do telepata — depois que a casa parece, literalmente, voar pelos ares; e a sequência da ponte, onde os efeitos especiais da cara produção de 150 milhões de dólares são usados abusivamente, em que Magneto usa todo o seu poder para remover de suas fundações a Golden Gate de São Francisco e carregar todo mundo consigo para a Ilha de Alcatraz.

Se a direção de Brett consegue criar cenas interessantes e os efeitos especiais da Weta Digital são incríveis, essa mesma direção não consegue arrancar de seus atores a carga que o filme necessita. Xmen – o confronto final é um filme que carece do estofo dramático visto nos filmes anteriores, um problema que nem a presença ilustre de Ian McKellen e de Patrick Stewart consegue solucionar, já que a produção prefere deixar a cargo nomes mais conhecidos para pilotá-la, como Hugh Jackman e Halle Berry. Essa necessidade de aparecer destes últimos, provavelmente por ordem de seus produtores visando atrair mais público, é visível pelo maior destaque e tempo de tela dado aos dois.

Mas, na conta total, nada, nem Brett, nem a falta de estofo dramático, seria grande problema para a produção, afinal tanto Halle Berry e Hugh Jackman são atores competentes, que defendem seus personagens, seguram a trama e acreditam neles. Ambos devem suas carreiras à série — foi o primeiro X-Men que colocou o australiano Jackman na rota de Hollywood e o lançou para o mundo — e foi o mesmo filme que tornou conhecida Halle Berry —, inflacionando seu cachê cinematográfico, a despeito das escolhas desastrosas dos projetos da atriz. Dizem, aliás, que a atriz infernizou os executivos para que sua personagem tivesse aqui maior destaque, o que não seria pedir demais, já que sua personagem é bastante conhecida e tem papel de destaque em várias tramas dos quadrinhos. O maior problema do filme é, sem dúvidas, o seu roteiro, escrito por Zac Penn (do terrível Elektra e do excelente Xmen 2) e Simon Kinberg (de Jumper, Sr e Sra Smith).

Há duas tramas correndo na tela: a da cura dos mutantes e a do ressurgimento de Jean Grey, que volta dos mortos como a poderosa entidade Fênix. Em nenhuma das duas, no entanto, há a profundidade necessária para criar empatia ao público nem discussões (seria exigir demais?), deixando o filme com uma sensação de que a escolha apenas de uma das duas seria mais bem aproveitada e faria o filme ferver.

Por exemplo: caso optasse apenas pelo desenvolvimento do tema da cura, os roteiristas tinham nas mãos uma série de questionamentos e metáforas que poderiam ser usadas, mantendo a energia e o conceito da série — bem como uma carga dramática maior; poderia se aprofundar na forma como a sociedade reagiria à divulgação da cura mutante, como isso teria repercussão no âmbito politico, moral e social e como se difundiria dentro da própria minoria — haveria aqueles que se posicionariam de forma nula, outros que iam aderir e aqueles que ficariam contra a cura, causando dentro deles um conflito velado e, porque não, preconceito. Havia a possibilidade de crítica ao governo e a indústria farmacêutica, que certamente ia querer lucrar com a descoberta de uma cura mutante e a possibilidade de fazer uma limpeza racial. Xmen sempre foi uma metáfora sobre minorias, sobre negros, sobre homossexuais, ou deficientes, que lutam por seus direitos e por um lugar ao sol. O tema de “cura” das minorias que vivem às margens da sociedade cairia como uma luva nas mãos de roteiristas habilidosos.

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Mesmo em segunda instância, caso escolhessem apenas pela trama do ressurgimento da Fênix, o filme poderia focar nas suas consequências. Haveria temas a se discutir, como retratar o abalo entre os Xmen e seus inimigos causados pelo retorno de Jean, que poderia resultar em cisões e mágoas profundas ou uniões improváveis contra um verdadeiro monstro — e, porque não, em mortes e sofrimento também. A trama da ressurreição poderia enveredar por uma poderosa metáfora religiosa (nos quadrinhos como no segundo filme, a morte de Jean vem com o sacrifício pelos seus amigos e, curiosamente ao ressurgir, é contra eles que ela se posiciona), em que se questionariam as crenças e fé dessa minoria. Fênix é uma entidade poderosa, um salto evolutivo, capaz de engolir mundos, um perigo para si mesma e para os seus amigos. Com seu poder, ela poderia dominar o mundo e os únicos que poderiam estar contra ela seriam justamente aqueles que eram seus semelhantes. Xmen o confronto final poderia, em cima desse argumento, até mesmo mostrar um futuro negro, de guerra e destruição, uma era de puro apocalipse (como sugere a sequência inicial da sala de perigo do filme). Seria uma visão diferenciada, obscura e interessante para fechar com chave de ouro a trilogia.

Qualquer uma das duas opções seria melhor. Mas, a despeito das possibilidades, há ainda buracos visíveis no roteiro, com relação aos personagens “Calisto” e “Fanático” (na cena da casa, no momento final, eles misteriosamente somem sem deixar vestígios, algo que parece se repetir com um deles na cena de combate em Alcatraz). Para completar o golpe de misericórdia, entram em cenas personagens apagados e um sem número de gente que nada tem a fazer a não ser criar uma superpopulação de mutantes na tela, em mais um desequilíbrio notável da trama.

Mística tem pouco a fazer, o mesmo vale para Ciclope em sua participação mínima e a tentativa descarada do filme de criar um triângulo amoroso entre Homem de Gelo, Vampira e Kitty Pride (Ellen Page, simpática). Anjo parece um daqueles casos em que o personagem é colocado apenas para ser reconhecido pelos fãs para não fazer nada de útil; personagens coadjuvantes como Arco Voltaico e Homem Múltiplo são desnecessários e não acrescentam em nada. A atriz Famke Janssen é esforçada, mas em tela funciona apenas com a presença de Hugh Jackman. Sozinha, falta carisma a sua interpretação glacial e ela parece perdida.

Sobressai aqui e ali nesse mar de mutantes apenas Ian McKellen como Magneto, protagonizando cenas memoráveis como a da ponte e a que parece montar um exército; o ator Patrick Stewart, com sua serenidade e seu talento, em seu conflito na casa de Jean Grey; e a grata surpresa Kelsey Grammer, emprestando dignidade ao personagem Fera e, em poucos momentos de tela, passando as camadas de sua personalidade, ora seduzido pela oportunidade da cura, ora demonstrando inteligência e diplomacia, ora agindo como uma besta na linha de frente de guerra.

Diante disso tudo, de todas as possibilidades, fica a sensação de que o filme poderia ser mais e melhor. Xmen o confronto final é o filme que “poderia ser”, mas nunca “é”. Poderia ser brilhante, poderia ser o melhor da trilogia, poderia representar um salto impressionante nos filmes baseados em quadrinhos, mas não consegue nada disso. Durante 1 hora e 43 minutos de projeção, o que se vê, no entanto, é uma tentativa de colar tudo o que se viu em duas sagas importantes dos quadrinhos — a saga da Fenix Negra e a entrada de Joss Whedon em Surpreendentes Xmen — de maneira rápida e desequilibrada, como se não houvesse tempo o bastante para desenvolver nada.

O saldo é positivo porque o filme vale como passatempo, como diversão, como filme de ação empolgante, mas é pouco, se contarmos que é posterior a um trabalho cuidadoso como o segundo filme e baseado em uma obra de quadrinhos que vem entretendo e fascinando gerações por muitas décadas — cuja enorme importância já está mais do que estabelecida no mundo do entretenimento.

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TRAILER

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