Yonlu (Crítica)

Ricardo Rocha

“Agora, meu suicídio é iluminado, pelo pôr do sol”
Suicide Song – Yonlu

No dia 26 de Julho de 2006 um jovem cheio de sentimentos interiorizados por suas canções consistentes afloradas por ideias sólidas comete suicídio em seu apartamento. Sua única plateia era um fórum com potenciais suicidas de diversas partes do mundo.

O diretor gaúcho estreante Hique Montanari poderia percorrer um caminho mais verossímil e nos entregar um drama angustiante e pesado narrando os últimos dias antes do trágico acontecimento, em vez disso preferiu seguir por uma linha mais intimista, usando das músicas que o próprio artista compôs e de seus desenhos e anotações para inserções artísticas. Às vezes parecendo um documentário / homenagem, outras vezes passando por um caminho totalmente experimental, quando insere seus personagens num cenário artificial, uma réplica perfeita de seu quarto, onde passava o dia inteiro trancado em chats e compondo suas canções.

Vinicius Gageiro Marques aqui ganha vida pelos olhos vidrados do ator e também cantor Thalles Cabral, inclusive pode ser conferido algumas músicas suas no youtube. O filme começa com uma mensagem “Uma sociedade em que nenhuma lágrima é derramada é inconcebivelmente medíocre” que pretende ser discutida ao longo de quase 1h30. O suficiente para nos fazer refletir sobre as causas, o comportamento e os pontos de vista, aqui expressados pelo psicólogo que acompanhava Yonlu desde os 9 anos, até os pais, que aparecem pouco em cena tentam de forma mostrar seu cotidiano, ainda que as vezes tudo pareça muito remontado aos bons momentos vividos por aquela família.

As cenas musicais seguem quase que toda uma linha de clipes alternativos similares aos de banda como RadioHead e Kings Of Convinience. Inclusive as canções são usadas com a voz do próprio Vinicius originalmente.

Yonlu (Crítica)

Toda narrativa, porém que envolve Yonlu e o fórum sobre suicidas e todas as dicas que eles contribuem, soam quase que como uma denuncia social, pessoas escondidas atrás de nomes falsos, incitando a morte, muitos deles jovens como o Yonlu é o ponto mais cruel e sombrio, a camada que nos serve de atenção. O verde usado na fotografia nesses momentos serve para nos separar claramente da barreira virtual e do real, assim como o protagonista, que perde completamente a noção de espaço entre esses dois mundos.

Thalles não é exatamente um ator espontâneo e às vezes parece velho demais para o papel, ou as falas parecem terem sido reescritas e reinterpretadas de forma a ser perceptível que ele está lendo um texto. Talvez seja intencional, se observamos todo o cenário construído para parecer um recorte daquele tempo sombrio vivido pelo protagonista. Vemos toda a iluminação do cenário, assim como é recriando um espaço cênico como uma reconstituição dos fatos, ampliados pela visão artística/experimental do diretor.

Em 2010 tivemos um filme americano com um assunto similar, “Chat- A Sala Negra” de Hideo Nakata, mas tratada de uma forma mais convencional pelo gênero de terror/suspense.
Sem dúvida a obra ganha pelo espectro poético e sensível com qual aborda um tema tão delicado e quase tabu na sociedade em que vivemos.

Yonlu é um filme para se visto com olhos bem abertos, não nos entrega um drama comum de um personagem passando por depressão e indo cada vez mais fundo em suas aspirações artísticas, mas uma visão lúdica e perturbada de um adolescente que não encontrou um abraço quando mais precisou, e sim um empurrão para um abismo sem volta. – Como diz o psicólogo no filme.

Ficam as músicas como testamento de um jovem prodígio, que por sinal são maravilhosas, apesar de melancólicas, todas disponíveis no youtube.

“Porque isso tem que sempre terminar em humilhação para mim?”
Humiliantion – Yonlu

Pôster de divulgação: Yonlu

Pôster de divulgação: Yonlu

SINOPSE

Vinícius Gageiro (Thalles Cabral), mais conhecido como Yonlu, é um jovem poeta, músico e desenhista, além de ser fluente em quatro idiomas. Apesar de talentoso, ele decidiu dar fim à sua vida depois de ingressar em uma comunidade virtual de assistência para potenciais suicidas.

DIREÇÃO

Hique Montanari Hique Montanari

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hique Montanari
Título Original: Yonlu
Gênero: Drama
Duração: 1h 30min
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 30 de agosto de 2018 (Brasil)

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