ZOOM (Crítica)

Juca Claudino

CORES E MAIS CORES

O diretor Pedro Morelli falou por diversas vezes, durante a promoção de seu filme “Zoom”, sobre o fato de criar uma estética e um estilo visual diferente para cada uma das 3 narrativas distintas do roteiro desse filme. A fotografia “indie estadunidense” cheia de simetria para a história de Emma, a coisa mais introspectiva e realista para a história de Michelle e a estilosa animação para a história de Edward. E de fato, é nessa sua proposta, de criar 3 universos diferentes que se conectam a partir de uma bizarra ligação metalinguística que temos a parte mais chamativa e interessante do filme. Quanto ao desenvolvimento dos personagens e da(s) história(s) em si, “Zoom” não consegue fugir de uma superficialidade e tudo parece muito artificial e pouco contagiante: o longa se foca muito em um debate sobre a imposição de padrões de beleza na nossa sociedade, e por mais que esteja aqui tratando de um tema muito importante – e que precisa ser discutido! – não é abordado de uma forma provocativa e seus personagens parecem inclusive um tanto óbvios e previsíveis. Isso porém não torna a estreia como diretor solo de Morelli (que havia dirigido junto com seu pai, Paulo Morelli, “Entre Nós”, até então único longa de seu currículo) uma experiência menos curiosa e divertida.

A fotografia dos filmes “Alois Nebel” (animação tcheca dirigida por Tomás Lunák), “Valsa com Bashir” (longa israelense de Ari Folman) e até do clipe de “Take on me” (do A-ha), além de uma influência mais direta de “Waking Life” (dirigido por Richard Linklater), foram inspirações para o projeto de Pedro Morelli, “Zoom”, quanto à história de Edward (um cineasta super popular, especializado em blockbusters de Hollywood – vivido pelo eterno Ernesto Guevara, Gael García Bernal). O visual do filme é bem trabalho, disso poucos descordam. A animação, principalmente, chama a atenção para si: o efeito criado pela equipe foi algo de muito estilo, vivo e com um quê de história em quadrinho que dá um charme meio “art pop”. O filme, inclusive, é muito interessante em uma de suas propostas iniciais: construir 3 narrativas distintas que se interlaçam a partir de uma curiosa relação de metalinguagem (a sinopse deve saber te explicar essa relação bem melhor do que eu). Mais do que isso, Morelli cumpre com seu objetivo de dar a cada uma das três histórias personalidades diferentes, afirmando a ideia de que são três mundos distintos ali representados. E os outros dois mundos, por mais que não sejam tão chamativos como o de Edward, não ficam atrás: o de Emma tem seu toque lá para a comédia indie estadunidense, na qual se trabalha um pouco a imagem simétrica e extravagante, enquanto o de Michelle tem ares mais “dramáticos” e “autorais” (com algumas câmeras lentas e planos menos convencionais). De fato, fica interessante ver 3 universos diferentes dialogando um com o outro, o que garante um efeito cômico funcional.

Todavia, o centro do filme está mesmo nesse debate sobre os padrões de beleza e como esses simbolizam status. O valor de você ter traços que sigam esses padrões é tratado (devidamente) com sarcasmo em “Zoom”: Emma, por exemplo, é uma garota que deseja imensamente ter seios maiores e acha que com isso ganhará maior auto-estima, mas o que vemos quando esse desejo finalmente se concretiza é apenas uma bizarra experiência a qual nossa personagem logo se arrepende – o filme tira sarro da ideologia dos “corpos perfeitos”. Embora a sátira a esse superficial desejo de ter “seios maiores” ou “curvas mais definidas” seja bem realizada, ela não é exatamente provocativa. Os personagens do filme se mantém dentro de um aspecto superficial, e se mostram pouco cativantes a partir disso. Logo, é possível dizer que “Zoom” perde um pouco de seu sabor quando, diferentemente de seu visual, o desenvolvimento de seus personagens é pouco comovente quando não mal resolvido. Mesmo assim, o longa continua saboroso, até porque faz uma crítica necessário aos tempos atuais de forma divertida e muito, mas muito estilosa.

Paulo Morelli já tem currículo no audiovisual nacional (dirigiu “Cidade dos Homens”, por exemplo). Pedro Morelli, podemos dizer assim, cresceu entre grandes já que, além do que provavelmente aprendeu com seu pai em “Entre Nós”, trabalhou com Fernando Meirelles na adaptação da obra de Saramago “Ensaio Sobre a Cegueira”, quando – diz a lenda – chamou a atenção de Niv Fichman (que produzia o longa de 2008) a ponto deste apostar no novato para fazer algo “novo” e “original”. Esse algo “novo” e “original” é o que resultou nesse “Zoom”, um muito bem pensado filme cheio de suas extravagâncias e seu visual interessantíssimo. Um divertido reflexo sobre padrões de beleza e um divertido jogo de estéticas em um multiplot.

ZOOM

SINOPSE

Esta é a história de três artistas: Edward (Gael García Bernal), vaidoso diretor de cinema que precisa refilmar o final de um longa contra sua vontade e de repente começa a ter problemas sexuais. Michelle (Mariana Ximenes), modelo brasileira que deixa namorado e carreira nos Estados Unidos para voltar ao seu país e escrever um livro. E Emma (Alison Pill), que, desesperada para retirar seus implantes de silicone, recorre a meios duvidosos para ganhar um dinheiro extra.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Pedro Morelli” espaco=”br”]Pedro Morelli[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Matt Hansen e Pedro Morelli
Título Original: Zoom
Gênero: Comedia, Drama, Animação
Duração: 1h 36min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 31 de março de 2016 (Brasil)

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