MAIS FORTE QUE O MUNDO – A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO (Crítica)

Kadu Silva

Esteticamente deslumbrante, mas…

Por mais que neguem, é fato, a indústria do UFC é forte e riquíssima, tanto é que o investimento feito para tornar o “esporte” popular em diversos países continua a todo vapor, inclusive aqui no Brasil. Várias celebridades e emissoras ganham muito dinheiro para falar bem dessa prática (medieval), e como era de se esperar a indústria do cinema também entrou no jogo e ganha agora seu primeiro filme de ficção nacional com a trajetória de um dos astros do octógono.

A Paris Filmes e a produtora Diane Maia, junto do diretor e roteirista Afonso Poyart (2 Coelhos) resolveram aproveitar o momento de grande exposição midiática do esporte no Brasil e roteirizar uma das histórias dos lutadores nacionais e o escolhido foi José Aldo pela origem humilde e sofrida na periferia de Manaus. Poyart narra a vida de José Aldo em família marcada pela violência doméstica, passando pela sua vinda ao Rio de Janeiro até seu triunfo, onde se tornou o primeiro campeão do peso-pena do UFC.

O roteiro tem uma certa linearidade em sua narrativa, mas como é comum em cinebiografias é mesclado por flashbacks, seu maior equivoco é não consegue expressar as convicções de Aldo, é quase como se fossemos uma espécie de voyeur da vida do personagem, nunca entendemos ao certo, o que fez ele se tornar lutador e se de fato ele tinha isso como meta ou sonho, tudo é mostrado sem aprofundamento. A cicatrizes sentimentais da convivência em família sugere que ele tinha um temperamento violento e por isso buscou na luta uma válvula de escape, mas não é completamente claro isso. Poyart acaba investindo muito na estética e infelizmente falha em dar para o arco dramático uma empatia maior, ainda mais por se tratar de uma cinebiografia de um astro. A criatividade do cineasta se destaca em dar para a narrativa a sensação de estarmos no subconsciente do lutador, e as heranças tristes e sofridas do passado sempre estarem presentes no dia-a-dia do personagem e atormentando suas atitudes.

O longa-metragem tem referências de filmes emblemáticos bem contundentes como: Rocky, O Lutador, Dois Filhos de Francisco e até Cidade de Deus, por ter a redenção de um lutador, a relação pai e filho e a origem e a relação marginal com a favela.

Ainda sobre certos “equívocos”, por ser uma produção que terá mercado internacional, por José Aldo ser um atleta mundialmente conhecido, existe uma representação caricata do país, aquela que estrangeiro gosta de ver.

Mas como já citei o visual é o forte do filme, a fotografia de Carlos André Zalasik (2 Coelhos) é maravilhosa, meio noturna e sombria na fase em Manaus e solar e colorida no Rio de Janeiro. Os movimentos de câmera nas cenas de lutas e brigas maximizado pela montagem ágil de Lucas Gonzaga (Presságios de Um Crime) impressionam, destaque para a briga no bar entre Aldo e três homens, é de tirar ao fôlego.

Ainda sobre os acertos vale destacar o ótimo elenco do filme, todos estão ótimos em seus papeis, mas dois merecem menção extra, José Loreto (Os Homens São de Marte… E é pra Lá que Eu Vou!) que encontra uma composição muito interessante para o lutador que parece estar sempre atormentado pelos fantasmas do passado, além disso, fica claro sua dedicação para compor o personagem, ele convence muito bem como lutador e segundo o próprio, todas as cenas de luta foram realizadas por ele. E Jackson Antunes (O Palhaço) que faz o pai de José Aldo, o Seu José, ele é um homem violento e até certo ponto insensível, mas que consegue ganhar da plateia pelo olhar de ternura de um homem que não sabe “viver” sem o auxílio da bebida, mesmo sendo o denominado vilão da história, é impossível não se encantar pelo personagem que diante da visão do protagonista era um ídolo mesmo com todos os defeitos e Antunes faz como ninguém esse equilíbrio entre o bem e o mal nesse complexo personagem.

A trilha sonora também merece destaque por apresentar canções que auxiliam na narrativa e na tradução de certos momentos apresentados no longa.

Mais forte que o mundo tem grandes acertos, na estética ímpar, no elenco que sabe conduzir a trama muito bem, mas (infelizmente) se perde em encontrar um roteiro que de fato faça a plateia encontrar nesse esportista um exemplo ou pelo menos alguém que seja apaixonado de fato pelo que faz, a ponto de nós fazer querer torcer por ele na vida e no seu ofício.

Mais Forte que o Mundo - Aldo Poster

SINOPSE

José Aldo (José Loreto), forte rapaz de família pobre, marcada pela violência doméstica, deixa o Amazonas e parte para o Rio de Janeiro em busca de uma chance como atleta. Para vencer os oponentes no octógono, porém, ele terá antes que acertar suas contas com o passado e superar velhos traumas. Cinebiografia do lutador amazonense que se tornou o primeiro campeão peso-pena do UFC.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Afonso Poyart
Título Original: Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 1h 55min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 16 de junho 2016 (Brasil)

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