MEU AMIGO HINDU (Crítica)

MEU AMIGO HINDU

2estrelas

Por Kadu Silva

Uma homenagem ao cinema, que parou no tempo

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Nunca se discutiu tanto, como nesse ano, o fato de Hollywood e especificamente a Academia de Cinema de lá, de não conseguir acompanhar as mudanças culturais e sociais do mundo. Negros e as mulheres praticamente não são lembrados para as premiações, mesmo se destacando em produções importantes. Logico que a discussão precisa ter uma visão marco, já que a falta de escalação dessas profissões, talvez seja a principal problemática desse assunto, mas isso é assunto para um artigo futuro. Essas aspas são para introduzir o fato que o novo filme do renomado diretor argentino-brasileiro Hector Babenco (Carandiru, Pixote), faz uma homenagem ao cinema que prima exatamente por esse “retrocesso” e isso não é só minha impressão, na coletiva de imprensa ele e o Arnaldo Jabor disseram que lutam para manter vivo esse tipo de cinema, denominado por eles autoral e de assinatura.

O longa apesar de Babenco dizer que não se trata de uma autobiografia é claramente uma visão ficcional de sua trajetória nos últimos anos no cinema e na vida. Willem Dafoe faz o Diego que é o alter ego do Babenco, um cineasta egocêntrico que descobre que está com um câncer terminal e com poucas chances de cura, ele então é aconselhado a fazer um tratamento experimental nos Estados Unidos, sempre acompanhado por sua esposa Lívia (Maria Fernanda Cândido). No hospital acaba conhecendo um garotinho hindu que também estava fazendo o tratamento, esse encontro leva o cineasta a reviver seu lado infantil repleto de fantasia ao contar ao garoto histórias de filmes que lhe ficaram na memória. Nesse período também Babenco ou melhor Diego se encontra com o mensageiro da morte (Selton Mello) durante suas crises e começa a questionar suas atitudes perante a vida e a partir daí começa buscar uma “reviravolta” do andamento de seu caminho.

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O roteiro de Babenco é frágil, primeiro porque se concentra completamente na dor do cineasta, é praticamente 70% do filme no tratamento de um paciente antipático e que dificilmente dá ao espectador a vontade de torcer por ele. As relações dele com o círculo de amigos são repletas de ironia e soberba, mas um fato que dificulta se envolver com a trama, a visão da mulher no filme é de um ser inferior que precisa “servir” ao seu macho e a nudez delas é sempre explorada, isso durante todo o longa, tem ainda o fato do filme ter quase todo o elenco brasileiro e ser completamente falado em inglês, é um estranhamento grande ver os brasileiros falando em inglês, mas que acaba passando durante a projeção (por mais que neguem é visando o mercado internacional, somente isso), apenas no terceiro ato é que o filme ganha um pouco de humanismo e consegue a atenção da plateia, mas infelizmente já tarde para salvar essa relação.

Por falar em elenco, esse, talvez, seja o grande acerto do filme, Willem Dafoe (Homem-Aranha) soberbo como Diego, o filme se concentra muito em sua figura e ele consegue levar esse peso com maestria. Selton Mello, Maria Fernanda Cândido e Bárbara Paz (que faz ela mesma) estão todos excelentes e sabendo passar naturalidade em cenas complexas e ainda interpretando em inglês.

A trilha sonora é excelente, a fotografia também é deslumbrante, o próprio Babenco mostra que não é o que é a toa, ele sabe conduzir muito bem a narrativa, tem uma visão bela e poética, o seu problema é não conseguir acompanhar as mudanças do mundo e querer ficar no cinema do passado e isso se reflete no resultado final de sua direção. E diferente do que Jabor disse na coletiva é sim possível fazer um filme autoral e de assinatura acompanhando as tendências mundiais de inclusão, como por exemplo Boi Neon de Gabriel Mascaro.

Vale lembrar que o filme apresenta uma espécie de autoajuda, ao retratar que a humildade diante das coisas da vida, pode ser benéfica para seu crescimento como ser humano. Ah e destacar também a cena final que é deslumbrante e esteticamente perfeita já que consegue representar a homenagem ao cinema de forma a encantar os olhos, tudo que ficou faltando no restante do filme.

Meu Amigo Hindu faz uma homenagem retro (antiquada) do que um dia foi o cinema de sucesso mundial.

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SINOPSE

Diego (Willem Dafoe) é um cineasta diagnosticado com câncer terminal, cuja única chance de sobrevivência é se submeter a um transplante de medula óssea experimental, que apenas é realizado nos Estados Unidos. Assim, ele parte para Washington mas antes decide se casar e se despedir dos amigos. Já no hospital, ele conhece um menino hindu de apenas oito anos, que também está internado. Logo Diego passa a vivenciar com ele aventuras fantasiosas, inspiradas no cinema, que ajudam a suportar a dura realidade que os cerca.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hector Babenco
Título Original: Meu Amigo Hindu
Gênero: Drama
Duração: 2h 4min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 3 de março de 2016 (Brasil)

TRAILER

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