Todo Clichê do Amor (Crítica)

Kadu Silva

Usando o clichê a favor da narrativa

Quem costuma ler críticas, certamente já esparrou em algum texto em que o crítico justifica seu desapontamento com a obra pelo uso excessivo de clichês – para quem não sabe, clichê é uma ideia já muito batida, repetida com frequência, no entanto, esses mesmos clichês quando bem usado podem render um olhar muito interessante para um tema, como acontece com a obra Todo Clichê do Amor, de Rafael Primot (Gata Velha Ainda Mia).

O longa apresenta três histórias de amor padrão, um triangulo amoroso entre um tímido, a mocinha e a amiga, a madrasta e a enteada, e a relação entre um ator pornô e uma prostituta que sonha em ter um filho. No começo cada uma dessas histórias acontece de forma clichê, tudo como estamos acostumados a acompanhar, mas ao desenrolar da trama, verificamos que a primeira impressão sobre os fatos não é bem a que parece, e todos os personagens que a priori se mostram estereotipados são aprofundados em camadas muito humanas e delicadas, tirando do espectador toda certeza dos acontecimentos que se seguem.

É exatamente essa sacada inteligente que faz o roteiro de Primot se tornar refrescante dentre as comedias que vemos no cinema nacional, pois o machismo, a misoginia, o maniqueísmo, acabam caindo por terra quando a lupa se aproxima dos personagens e vemos que ali se encontra muito mais do ser humano que em geral não tem espaço de mostrar exatamente quem ele é em função do nosso rápido julgamento pela primeira imagem construída dentro dos estereótipos (na entrevista acima, o Rafael fala mais sobre isso).

Todo Clichê do Amor (Crítica)

Outro detalhe interesse na construção da ideia do diretor foi colocar personagens com deficiências físicas, que além de trazer uma inclusão para a obra, faz também o papel de criar uma analogia da forma com que o ser humano, em geral, agi quando está dentro de suas relações amorosas, se tornando cego, surdo ou mudo para a realidade.

Já que era para desconstruir os clichês, a forma como o Rafael conecta as histórias é primorosa, fazendo uma espécie de metalinguagem muito interessante de acompanhar, ele acaba nos conduzindo ao imaginário dos contos e quando estamos quase suspirando de encantamento, ele nos puxa para a realidade nua e crua (brilhante).

O elenco totalmente entregue na ideia do diretor, se mostra fundamental para criar o ambiente pensando por Primot, alguns, inclusive estão apresentando papeis bem diferentes do que estamos acostumados a vê-lo fazer, destaque para Marjorie Estiano (Entre Irmãs), que faz uma prostituta sadomasoquista – ela se mostra em cena numa roda gigante de sensações, do humor ao drama no timing perfeito. Muito em função de seu excelente desempenho a sua história acaba se tornando a mais empática dentre as apresentadas.

O filme é totalmente independente, tanto na produção como vai ser em seu lançamento comercial, por isso, a total liberdade do diretor no texto e das escolhas, até certo ponto ousada de algumas atrizes para o filme, fato que por si só já merece no mínimo sua atenção especial pelo resultado que vemos em tela.

Todo Clichê do Amor é inteligente, divertido e acima de tudo, soube como poucos usar os clichês a seu favor.

Pôster de divulgação: Todo Clichê do Amor

Pôster de divulgação: Todo Clichê do Amor

SINOPSE

Na cidade de São Paulo, uma prostituta deseja se tornar mãe; uma garçonete comprometida tem um admirador capaz de se tornar assassino para provar seu amor; e uma madrasta tenta cativar a enteada no velório do pai. Histórias um tanto quanto esquisitas sobre amor que revelam inusitadas formas de afeto quando colocadas em contato.

DIREÇÃO

Rafael Primot Rafael Primot

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Gregory Burke
Título Original: Todo Clichê do Amor
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 1h 23min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 19 de abril de 2018 (Brasil)

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